Política

Daniella Marques disputa narrativa sobre mulheres na direita

Daniella Marques disputa narrativa sobre mulheres na direita
Foto: Metrópoles

Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e nome cotado para a vice de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, movimentou-se nesta segunda-feira (20) para disputar um dos terrenos mais sensíveis da direita brasileira: a percepção sobre o lugar das mulheres no movimento conservador.

Em live com o deputado Eduardo Bolsonaro, Marques declarou que "mulher de direita não é submissa". A frase não é casual. Ela responde a anos de críticas que associam o bolsonarismo a posições patriarcais e à defesa de hierarquias tradicionais de gênero.

O contexto de uma disputa simbólica

A declaração se insere em um momento de reconfiguração estratégica do campo bolsonarista. Após a derrota de 2022, lideranças do movimento têm tentado ampliar sua base eleitoral, especialmente entre mulheres — segmento no qual Jair Bolsonaro teve historicamente rejeição elevada.

Daniella Marques representa um perfil que o bolsonarismo busca projetar: executiva com passagem pelo mercado financeiro, gestora de uma das maiores instituições públicas do país, mulher com discurso assertivo. Nada na construção dessa imagem remete à subalternidade.

O problema é que a narrativa esbarra em contradições estruturais do próprio movimento.

Precedentes que complicam o discurso

O histórico de declarações de Jair Bolsonaro sobre mulheres é extenso e documentado. De afirmações sobre salários menores a comentários sobre o corpo de parlamentares, o ex-presidente construiu uma trajetória que consolidou a percepção de misoginia em sua base discursiva.

Mais que isso: parte significativa do eleitorado bolsonarista se identifica justamente com uma visão tradicional de papéis de gênero. Pesquisas eleitorais de 2018 e 2022 mostraram correlação entre voto em Bolsonaro e adesão a valores conservadores sobre família e relações entre homens e mulheres.

A tentativa de Marques, portanto, não é apenas retórica. É uma disputa interna sobre qual versão do conservadorismo brasileiro prevalecerá na próxima fase do bolsonarismo: a linha-dura identitária ou uma direita modernizada, palatável ao eleitorado urbano feminino.

A estratégia de Flávio Bolsonaro

A escolha de Daniella Marques como possível vice em uma chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro não é acidental. O senador tem se posicionado como o articulador político da família, diferenciando-se do voluntarismo de Eduardo e do perfil confrontacional do pai.

Uma candidatura ao governo fluminense exige penetração em segmentos que o bolsonarismo ainda não conquistou plenamente. Mulheres com ensino superior, moradoras da capital e da região metropolitana, economicamente ativas — esse é o alvo.

Marques oferece credenciais para dialogar com esse público sem romper com a base tradicional. Sua passagem pela Caixa durante o governo Bolsonaro a mantém dentro do círculo de confiança ideológica, enquanto seu perfil técnico atenua as arestas mais radicais.

O que está em jogo

Para além da eleição fluminense de 2026, a movimentação de Daniella Marques sinaliza uma disputa mais ampla pela definição do conservadorismo brasileiro pós-Bolsonaro.

Se a direita quer disputar o poder de forma sustentável, precisa resolver sua relação ambígua com o eleitorado feminino. Não pode depender eternamente da polarização e da rejeição ao PT para mobilizar votos.

A questão é se o bolsonarismo conseguirá integrar essa agenda de "mulher conservadora não-submissa" sem fragmentar sua própria base — que, em boa medida, valoriza hierarquias tradicionais como princípio organizador da sociedade.

A declaração de Marques é, nesse sentido, tanto uma afirmação quanto um teste. Ela mede até onde o campo conservador pode se modernizar sem perder identidade. E até onde o eleitorado bolsonarista aceita essa modernização.

As próximas movimentações de campanha dirão se a frase foi apenas retórica ou o início de um reposicionamento estratégico.