Política

Cunha rebate Romeu Zema e expõe racha no campo anti-Lula

Cunha rebate Romeu Zema e expõe racha no campo anti-Lula
Foto: Metrópoles

Eduardo Cunha não perdoou. Chamado de "cadáver político" pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, o ex-presidente da Câmara devolveu na mesma moeda: classificou Zema como "candidato ao quinto lugar" na disputa presidencial de 2026.

A troca de ofensas públicas entre duas figuras do campo anti-petista expõe uma fratura que vai além do episódico. Revela a fragmentação acelerada da oposição a Lula, num momento em que a direita brasileira ainda busca um nome viável para enfrentar o presidente ou seu sucessor.

A origem do conflito

Zema disparou primeiro. Ao comentar as articulações políticas para 2026, o governador afirmou que a polarização permitiu "ressuscitar cadáveres como Eduardo Cunha". A frase não foi casual. Mirava o retorno de Cunha ao cenário político após condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato.

Cunha, que cumpriu pena e recuperou direitos políticos, não aceitou o rótulo. Sua resposta veio carregada de desprezo calculado: reduzir Zema a um candidato periférico, sem chances reais de disputar o Planalto.

O episódio ilustra um padrão que se repete desde 2022. A direita brasileira multiplica candidaturas, multiplica ataques internos, multiplica divisões. Enquanto isso, o PT observa — e se fortalece.

Precedentes de autofagia

A história política brasileira registra diversos momentos em que a oposição se esfacelou por disputas internas. Nas eleições de 1989, Paulo Maluf e Guilherme Afif Domingos dividiram votos da direita. Em 1994, Enéas Carneiro fragmentou o campo conservador. Em 2006, Geraldo Alckmin e Cristovam Buarque racharam a frente anti-Lula.

Mas o quadro atual carrega especificidades. A direita pós-Bolsonaro enfrenta um dilema estrutural:

  • Não consegue unificar-se em torno de um nome de consenso
  • Não consegue distanciar-se completamente do bolsonarismo sem perder base eleitoral
  • Não consegue aproximar-se do bolsonarismo sem carregar o ônus de investigações e inelegibilidades

Zema representa a ala que tenta construir uma direita "limpa", liberal, descolada dos escândalos. Cunha personifica justamente o oposto: o político tradicional, pragmático, que transita pelo submundo das articulações sem pudor.

O que está em jogo

Para além das personalidades envolvidas, o embate Cunha-Zema simboliza uma disputa narrativa. Quem tem legitimidade para falar pela oposição? Os "outsiders" que prometem renovação? Ou os operadores políticos que conhecem as engrenagens do poder?

A resposta ainda não está dada. Mas os sinais são inequívocos: enquanto a direita desperdiça energia em brigas intestinas, o governo Lula avança na consolidação de alianças. O Centrão, que sempre foi terreno fértil para políticos como Cunha, hoje orbita o Planalto.

Zema, por sua vez, enfrenta um problema matemático. Governadores raramente chegam à Presidência no Brasil. Desde a redemocratização, apenas Fernando Henrique Cardoso — que sequer completou mandato como governador — fez a transição. Todos os demais presidentes eleitos vieram de outras trajetórias.

A fragmentação como padrão

O episódio dialoga com um fenômeno mais amplo: a atomização do sistema partidário brasileiro. Com 29 partidos representados no Congresso, a formação de consensos tornou-se exercício hercúleo. A direita espelha essa fragmentação.

Tarcísio de Freitas em São Paulo. Ronaldo Caiado em Goiás. Zema em Minas. Ratinho Junior no Paraná. Todos governadores. Todos com pretensões nacionais. Todos competindo pelo mesmo eleitorado.

E no meio desse tabuleiro, figuras como Cunha reaparecem. Não porque tenham renovado seu capital político, mas porque a desorganização generalizada abre espaço para todo tipo de articulação.

O diagnóstico de Cunha

Ao classificar Zema como "candidato ao quinto lugar", Cunha fez mais que uma provocação. Apresentou um diagnóstico: o governador mineiro não tem tração nacional suficiente para disputar o primeiro escalão.

As pesquisas, por ora, confirmam a avaliação. Zema patina em torno de 3% a 5% das intenções de voto em cenários presidenciais. Longe de Lula, longe de Bolsonaro, longe até mesmo de nomes como Tarcísio.

Mas diagnósticos em política têm prazo de validade curto. Um ano e meio antes de 2026, qualquer prognóstico definitivo é exercício de futurologia.

O que fica, por enquanto, é a imagem de uma oposição que prefere devorar a si mesma a construir pontes. E nisso, tanto Cunha quanto Zema colaboram igualmente.