Política

Crime organizado avança no RJ com voto territorial e omissão judicial

Crime organizado avança no RJ com voto territorial e omissão judicial
Foto: redir.folha.com.br

Belford Roxo registrou em 2022 algo que deveria ter acionado todos os alarmes institucionais: uma dobradinha eleitoral comandada por Daniela Carneiro e Márcio Canella mobilizou estruturas paramilitares, policiais e milicianos em plena disputa democrática. O recorde de votos veio acompanhado de violência nas ruas. Ninguém foi preso antes da eleição.

O caso não é isolado. Representa a consolidação de um modelo eleitoral que transforma bairros inteiros em currais controlados por grupos armados — com o Estado assistindo à distância.

O que é territorialização do voto

Territorialização significa controle físico de áreas eleitorais. Não se trata apenas de influência política tradicional. É domínio armado.

Milícias e facções determinam onde candidatos podem ou não fazer campanha. Eleitores votam sob pressão explícita ou implícita. Urnas se tornam extensões de fronteiras criminosas.

Na Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio, esse padrão se repete há pelo menos duas décadas. A novidade é a escala e o descaramento.

Belford Roxo como laboratório

A campanha de 2022 no município reuniu todos os elementos do problema:

  • Candidatos com vínculos conhecidos a milícias
  • Policiais militares e civis em atividade fazendo segurança de comícios
  • Confrontos armados entre grupos rivais durante atos de campanha
  • Denúncias ignoradas por Ministério Público e Justiça Eleitoral até depois do pleito

Daniela Carneiro elegeu-se deputada federal com votação concentrada. Canella, mesmo sem mandato, operou como cabo eleitoral decisivo. Ambos negam irregularidades.

O recorde de votos não veio de propostas ou debate público. Veio de estrutura territorial consolidada ao longo de anos.

Onde o Judiciário falha

A Justiça Eleitoral brasileira tem instrumentos para coibir captação ilícita de votos, abuso de poder econômico e milícias eleitorais. Raramente os usa de forma preventiva.

Investigações começam tarde. Cassações demoram anos. Quando acontecem, suplentes ligados aos mesmos grupos assumem.

O poder judiciário trata territorialização como desvio eleitoral comum. Não é. É captura armada do processo democrático.

Falta compreensão institucional de que essas candidaturas não competem em igualdade de condições. Elas operam sob proteção de estruturas criminosas que o Estado deveria combater, não validar com diplomas.

Precedente perigoso

Cada eleição sem intervenção judicial efetiva normaliza o modelo. Outros municípios observam e replicam.

Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Seropédica — a lista de cidades fluminenses com padrões semelhantes cresce. O fenômeno já alcança periferias de São Paulo e capitais do Nordeste.

Quando territorialização se torna rotina, a democracia local morre. Eleições viram ritual de legitimação de poderes paralelos.

O que está em jogo

Não se trata apenas de corrupção eleitoral. É a substituição progressiva do Estado por organizações criminosas em funções essenciais.

Milícias e facções que controlam voto também controlam transporte, gás, internet, segurança e até serviços funerários. Elegem quem pode aprovar ou barrar investigações nas câmaras municipais. Influenciam nomeações de delegados e promotores.

O ciclo se retroalimenta: poder político protege poder criminal, que financia novas campanhas.

Romper esse ciclo exige que o poder judiciário saia da postura reativa. Investigações precisam começar antes das eleições. Candidaturas com vínculos comprovados com grupos armados não podem ser homologadas. Partidos que as abrigam precisam responder.

Responsabilidade institucional

Tribunais eleitorais regionais têm dados, denúncias e inteligência suficiente para agir. Falta vontade política dentro da própria magistratura.

Juízes eleitorais reclamam de falta de estrutura. Mas casos como Belford Roxo não exigem investigação complexa — exigem coragem de indeferir candidaturas e cassar registros antes que virem mandatos.

Enquanto o Judiciário brasileiro se orgulha de sua independência e protagonismo em outras áreas, permanece tímido onde mais importa: garantir que eleições sejam realmente livres.

Belford Roxo é sintoma. A doença é nacional. E está se espalhando.