Política

Cortes de luz no DF expõem fragilidade da periferia política

Cortes de luz no DF expõem fragilidade da periferia política
Foto: Metrópoles

Quatro regiões administrativas do Distrito Federal ficaram sem energia elétrica nesta terça-feira (21/7). O corte, programado pela concessionária local, atingiu Planaltina, Fercal, Samambaia e Paranoá entre 9h e 16h. Sete horas sem luz. Sete horas que expõem mais do que falhas técnicas na rede elétrica.

O mapa do apagão desenha com precisão o mapa da desigualdade brasiliense.

A geografia do esquecimento

Não é coincidência. As quatro regiões atingidas concentram as populações mais vulneráveis do DF. Planaltina e Paranoá carregam históricos de ocupação irregular e infraestrutura precária desde os anos 1960. Samambaia nasceu nos anos 1980 como cidade-dormitório. A Fercal permanece isolada, encravada entre pedreiras e o Parque Nacional.

Juntas, essas regiões abrigam mais de 400 mil pessoas. Nenhuma delas integra o Plano Piloto ou as áreas nobres do Lago Sul e Lago Norte.

A interrupção programada revela uma lógica perversa: os cortes de energia para manutenção concentram-se sistematicamente nas periferias. Quando a rede precisa de reparos, quem paga o preço são sempre os mesmos.

Precedente antigo, repetição constante

O padrão não é novo. Desde a inauguração de Brasília em 1960, a capital federal reproduz contradições que deveria superar. Projetada como símbolo de modernidade e planejamento, a cidade materializou na prática uma das segregações espaciais mais brutais do país.

Lúcio Costa desenhou o Plano Piloto para 500 mil habitantes. Hoje, apenas 220 mil vivem ali. Os demais 2,8 milhões de brasilienses ocupam as cidades-satélites — eufemismo para periferias distantes do centro de poder.

Essa arquitetura da exclusão se manifesta em todos os serviços públicos. Transporte, saúde, educação, segurança. E agora, mais uma vez, no fornecimento de energia elétrica.

Quem decide, quem sofre

A distância entre o Congresso Nacional e Planaltina não é apenas geográfica. São 40 quilômetros que separam dois Brasis. Um onde se legisla. Outro onde se sobrevive.

Parlamentares e gestores públicos residem majoritariamente no Plano Piloto e adjacências. Raramente experimentam na própria pele as falhas dos serviços básicos. A interrupção programada de energia não atinge suas casas, seus escritórios, suas rotinas.

Essa dissociação entre quem toma decisões e quem sofre suas consequências corrói a própria noção de representatividade democrática.

O custo invisível

Sete horas sem energia significam perdas concretas. Alimentos estragados em geladeiras. Trabalhadores informais impedidos de operar. Estudantes sem acesso a aulas remotas. Pequenos comerciantes com prejuízos acumulados.

Para famílias de baixa renda, cada real perdido pesa. Mas esses custos raramente entram nas planilhas oficiais. Não há compensação. Não há ressarcimento. Apenas a naturalização do sacrifício periférico.

As concessionárias classificam as interrupções como "manutenção preventiva necessária". Tecnicamente correto. Politicamente revelador. Por que a prevenção não se distribui de forma equânime pelo território?

Análise de fundo

O caso expõe contradição estrutural do modelo brasileiro de gestão urbana. Cidades planejadas ou não, todas reproduzem a mesma lógica: centralidade para elites, precariedade para periferias.

Brasília deveria ser a exceção. Foi concebida como projeto de integração nacional, símbolo de um Brasil moderno e igualitário. Tornou-se, na prática, uma das capitais mais segregadas da América Latina.

Os cortes de energia em Planaltina, Fercal, Samambaia e Paranoá não são acidentes. São sintomas de escolhas políticas consolidadas ao longo de seis décadas. Escolhas que privilegiam determinados territórios em detrimento de outros.

O que muda

Nada mudará sem pressão organizada. As periferias do DF precisam conquistar voz política proporcional ao seu peso demográfico. Enquanto representantes e gestores permanecerem alheios à realidade dessas regiões, os cortes programados continuarão caindo sempre sobre os mesmos.

A energia elétrica, como tantos outros serviços essenciais, funciona no Brasil como termômetro da cidadania. Quanto mais distante do centro de poder, mais precário o acesso. Mais naturalizado o sacrifício.

O apagão desta terça-feira ilumina, paradoxalmente, uma verdade incômoda: no Brasil, direitos básicos ainda dependem do CEP.