Política

Corte de luz no Riacho Fundo expõe fragilidade energética do DF

Corte de luz no Riacho Fundo expõe fragilidade energética do DF
Foto: Metrópoles

Milhares de moradores do Riacho Fundo acordaram nesta segunda-feira sem energia elétrica. A Neoenergia suspendeu o fornecimento para realizar obras de "melhoria e modernização" da rede. O discurso técnico esconde uma realidade mais dura: a infraestrutura energética do Distrito Federal envelheceu e precisa de reparos emergenciais.

O corte programado é sintoma de uma questão estrutural que atravessa a análise política Brasil contemporânea. Décadas de investimento insuficiente em infraestrutura básica criaram um cenário onde interrupções planejadas se tornaram rotina. O cidadão paga a conta — literalmente e figurativamente.

A Política por Trás dos Fios

A gestão das concessionárias de energia no Brasil sempre foi terreno pantanoso. De um lado, empresas privadas que buscam lucro e minimizam custos operacionais. De outro, governos que fiscalizam frouxamente e toleram deficiências desde que não haja crise aguda.

O Riacho Fundo é região administrativa consolidada desde 1993. Três décadas depois, sua rede elétrica ainda demanda "modernização". A pergunta incômoda: onde esteve a Neoenergia — e antes dela, suas antecessoras — durante todo esse período?

As concessionárias operam sob contratos de concessão que estipulam metas de qualidade e investimento. O histórico mostra que multas regulatórias raramente intimidam. O custo de descumprir obrigações contratuais costuma ser menor que o de cumpri-las adequadamente.

Precedente Histórico

Este não é caso isolado. O Brasil viveu sucessivas crises energéticas nas últimas décadas. O racionamento de 2001 marcou uma geração. Desde então, autoridades prometeram investimentos robustos em geração e distribuição.

A distribuição, especialmente, ficou em segundo plano. Menos visível que grandes hidrelétricas ou parques eólicos, a rede de baixa tensão apodrece silenciosamente. Postes de madeira rachados, transformadores obsoletos, cabos expostos — o cenário é familiar em todo território nacional.

O Distrito Federal, sede do poder federal, não escapa dessa realidade. A ironia é evidente: a capital projetada para ser vitrine da modernidade brasileira sofre com problemas de infraestrutura dignos de cidades do interior.

Impacto no Cotidiano

Suspensões programadas de energia afetam desproporcionalmente os mais vulneráveis. Pequenos comerciantes perdem mercadorias perecíveis. Trabalhadores em home office ficam impossibilitados de exercer suas funções. Idosos e doentes dependentes de equipamentos elétricos enfrentam risco real.

A Neoenergia avisa com antecedência. É o mínimo exigível. Mas avisar não resolve o problema de fundo: a necessidade constante dessas intervenções evidencia má gestão histórica do sistema.

Há dimensão política crucial aqui. Governos se elegem prometendo obras visíveis — estradas, viadutos, prédios públicos. Manutenção preventiva de infraestrutura existente não rende votos nem manchetes. É trabalho ingrato que exige visão de longo prazo.

Regulação Capturada

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) teoricamente fiscaliza as concessionárias. Na prática, o histórico sugere captura regulatória. Ex-executivos das empresas reguladas frequentemente ocupam cargos na agência reguladora, e vice-versa. O conflito de interesse é estrutural.

Esse arranjo produz regulação branda. Metas frouxas, fiscalização complacente, punições simbólicas. As concessionárias operam confortavelmente dentro desse sistema, maximizando retorno aos acionistas enquanto minimizam investimentos que não sejam estritamente obrigatórios.

O Que Significa

Este corte de energia no Riacho Fundo é metonímia para falência mais ampla do modelo de concessões no setor elétrico brasileiro. Privatizar não resolveu problemas de eficiência. Apenas transferiu lucros para mãos privadas enquanto custos e riscos permaneceram socializados.

Para os moradores afetados, significa dia perdido, prejuízo material, transtorno evitável. Para a análise política mais ampla, significa confirmação de padrão: infraestrutura pública continua tratada como quintal de interesses privados, não como bem comum que deveria ser.

Enquanto não houver reformulação profunda dos marcos regulatórios — com fiscalização real, punições que doam e contratos que priorizem serviço público sobre lucro — cortes programados continuarão sendo rotina. E cidadãos continuarão pagando caro por serviço medíocre.