Copa 2030 terá 64 seleções: expansão revela lógica do poder global
Alejandro Domínguez soltou pelo Twitter o que a Fifa preferia anunciar depois: a Copa de 2030 terá 64 seleções. O presidente da Conmebol antecipou a expansão que dobrará o tamanho do Mundial atual.
A informação vazada não é acidente. É sintoma.
O que está em jogo
A Fifa planejava expandir o torneio gradualmente — 48 times em 2026, talvez 64 mais adiante. Domínguez forçou a mão. Confirmou pelo Twitter o que estava nos bastidores, obrigando Gianni Infantino a acelerar o calendário.
Por trás do tweet está uma disputa clássica: confederações regionais pressionando por mais vagas. Mais vagas significam mais países dentro. Mais países significam mais votos controlados. A matemática do poder é simples.
Europa e América do Sul dominaram Copas durante 92 anos. Agora África, Ásia e Concacaf querem pedaço maior do bolo. A expansão dilui a qualidade técnica, mas expande a base política.
Precedente que importa
O modelo não é novidade. A ONU opera assim desde 1945 — cada país um voto, independente de tamanho ou relevância. Pequenas nações insulares do Pacífico pesam igual a potências nucleares.
Na Fifa funciona parecido. Trinidad e Tobago tem o mesmo voto que Brasil. São Marino vota igual Alemanha. A lógica não é meritocrática. É democratizante no papel, clientelista na prática.
Infantino construiu sua presidência sobre essa base. Prometeu mais dinheiro para federações pequenas. Entregou expansão de torneios. Garantiu reeleições sucessivas.
O paralelo brasileiro
Quem acompanha reforma política brasil reconhece o padrão. Discussões sobre financiamento de campanhas, tempo de TV e fundo partidário seguem lógica parecida: recursos distribuídos não por peso político real, mas por fórmulas que protegem legendas nanícas.
Partidos com três deputados recebem fatias do fundo eleitoral. Legendas sem expressão ganham segundos de propaganda. O sistema premia existência, não representatividade.
Na Fifa e na política brasileira, a mesma equação: fragmentação gera dependência, dependência garante controle.
Quem ganha, quem perde
Com 64 seleções, países que nunca pisaram em Copa entrarão. Federações obscuras ganharão holofotes. O torneio durará mais. Os jogos ruins se multiplicarão.
Torcedores de potências tradicionais perdem. Verão suas seleções enfrentando adversários desproporcionais em fase de grupos inchada. A Copa deixa de ser evento concentrado para virar maratona diluída.
Mas Infantino e Domínguez não respondem a torcedores. Respondem a federações. E federações querem estar dentro, não assistir de fora.
Contexto histórico
A primeira Copa teve 13 times em 1930. Cresceu devagar: 16 times por décadas, depois 24, 32 em 1998. Cada expansão gerou polêmica. Cada expansão se consolidou.
O argumento é sempre o mesmo: "globalizar o futebol". O resultado é sempre o mesmo: centralizar controle político.
João Havelange expandiu a Copa nos anos 70 e 80 usando exatamente essa narrativa. Ficou 24 anos na presidência da Fifa. Infantino aprendeu a lição.
O que vem depois
Se 64 times se confirmarem em 2030, a porta está aberta. Por que não 96 em 2038? Por que não 128 eventualmente?
Existem 211 federações filiadas à Fifa. Mais da metade nunca jogou Copa. Todas votam em eleições da entidade. O incentivo à expansão infinita está dado.
A lógica é política, não esportiva. E política tem dinâmica própria: concentra poder através da aparente distribuição.
Domínguez sabe disso. Por isso antecipou a informação. Transformou plano em fato consumado. Deixou Infantino sem recuo.
No futebol como na política brasileira, reformas não acontecem por ideal. Acontecem por arranjo.