Concessão de trilhos paulistas expõe fragilidade da coalizão presidencial
A Trivia Trens assumiu nesta semana a operação de três linhas férreas na Região Metropolitana de São Paulo — Coral, Safira e Jade — em movimento que escancara a perda de protagonismo federal sobre ativos estratégicos de mobilidade. A concessão estadual passa ao largo da influência da coalizão presidencial, que vê São Paulo consolidar autonomia em infraestrutura crítica.
O contrato transfere à iniciativa privada não apenas as três linhas, mas também o Expresso Aeroporto, conectando a capital ao terminal de Guarulhos. A empresa promete ampliar a malha com novas estações. Trata-se do maior contrato de concessão ferroviária urbana do país fora da órbita direta de Brasília.
O que está em jogo
A operação revela o enfraquecimento do governo federal em dois flancos simultâneos. Primeiro: a incapacidade de coordenar nacionalmente investimentos em mobilidade urbana, deixando aos estados a condução de projetos bilionários. Segundo: a ausência de partidos da coalizão presidencial no arranjo político que viabilizou a concessão paulista.
O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, articula com empresários e bancada estadual sem precisar negociar com o Planalto. A base aliada de Lula no Congresso não tem assento relevante na modelagem dessas concessões. É São Paulo ditando ritmo próprio.
Precedente perigoso para Brasília
O modelo se repete. Estados economicamente robustos assumem projetos de infraestrutura enquanto o Executivo federal se debate em negociações parlamentares para aprovar orçamentos e reformas. A coalizão presidencial, formalmente majoritária no Congresso, mostra-se irrelevante quando o dinheiro não passa pelo caixa da União.
Historicamente, concessões ferroviárias seguiram lógica centralizadora. A RFFSA, extinta em 2007, concentrava no governo federal o controle da malha. Privatizações dos anos 1990 foram conduzidas por Brasília. FHC e Lula 1 mantiveram protagonismo sobre trilhos. Agora, a fragmentação.
Tarcísio replica estratégia que conhece bem: foi secretário de Infraestrutura de Bolsonaro e aprendeu a blindar projetos de interferências políticas tradicionais. A diferença é que agora opera contra os interesses de articulação da coalizão presidencial, que busca fortalecer governadores aliados em outros estados.
Quem ganha e quem perde
Vencedores imediatos: usuários das linhas, que devem ver melhorias operacionais; governo paulista, que reduz custo operacional; e a Trivia, que assume ativo rentável em região metropolitana densa.
Perdedores: partidos da coalizão presidencial, que não emplacam influência sobre contrato estratégico; e o governo federal, que assiste de camarote enquanto estados ricos avançam em autonomia infraestrutural.
A concessão das linhas paulistas não afeta diretamente a governabilidade no Congresso. Mas expõe limite claro: a coalizão presidencial funciona para aprovar MPs e PECs, não para ordenar investimentos descentralizados. É poder legislativo sem comando territorial.
O contexto mais amplo
São Paulo concentra 22% do PIB nacional e mantém capacidade de investimento superior à União em áreas específicas. O estado financia metrô, trens e marginais sem depender de repasses federais. Esse músculo econômico traduz-se em independência política.
Enquanto isso, a coalizão presidencial administra contradições internas. PT, MDB, PSD e outros partidos disputam espaços em ministérios e estatais federais, mas não conseguem projetar força sobre decisões estaduais de governos adversários. A fragmentação federativa joga contra o Planalto.
A Trivia assume operação com praça definida: região metropolitana de 21 milhões de habitantes, demanda garantida, fluxo de caixa previsível. É concessão de baixo risco político e alta visibilidade. Exatamente o tipo de projeto que a coalizão presidencial gostaria de associar a governadores aliados em véspera eleitoral de 2026.
Mas o trem já saiu da estação. E sem parada em Brasília.