Política

Coalizão presidencial ignora cultura enquanto país perde ícones

Coalizão presidencial ignora cultura enquanto país perde ícones
Foto: Metrópoles

O documentário sobre Preta Gil, lançado nesta segunda-feira, trouxe à tona mais que memórias pessoais. Expôs uma ferida institucional: a ausência crônica de políticas culturais na agenda da coalizão presidencial.

O cantor O Kanalha, em depoimento emocionado, relembrou os últimos momentos ao lado da artista. "Foi a última paixão dela", declarou. A frase ressoa além do aspecto romântico. Simboliza o abandono de uma geração inteira de artistas pela estrutura federal.

A omissão como política de Estado

Preta Gil representava um Brasil plural que a coalizão presidencial afirma defender em discursos. Na prática, o Ministério da Cultura opera com orçamento 40% menor que em 2014. Os dados são da Secretaria de Orçamento Federal.

A base aliada no Congresso não apresentou uma única proposta substantiva para o setor em 2024. Zero projetos de lei. Zero emendas relevantes. O silêncio é ensurdecedor.

Enquanto isso, artistas como Preta Gil construíram carreiras sem amparo institucional. Enfrentaram crises de saúde sem estrutura adequada. Morreram deixando legados que o Estado finge celebrar post-mortem.

O documentário como denúncia involuntária

O material audiovisual não foi concebido como manifesto político. Tornou-se um por omissão do poder público.

O Kanalha narra momentos íntimos com sensibilidade. Mas cada cena funciona como contraste. De um lado, a vitalidade criativa brasileira. Do outro, a indiferença da máquina governamental.

"A cultura brasileira sobrevive apesar do Estado, não por causa dele" — análise recorrente entre produtores culturais que preferem anonimato para não perder os parcos recursos ainda disponíveis.

Coalizão presidencial e a estratégia do abandono

A atual coalizão presidencial reúne 14 partidos. Nenhum elegeu a cultura como prioridade nas negociações de ministérios. O MinC foi tratado como moeda de troca simbólica.

Há precedente histórico. Nos anos 1990, o setor foi extinto e depois recriado sem musculatura orçamentária. O padrão se repete: promessas eleitorais, execução pífia, artistas morrendo sem reconhecimento institucional adequado.

Preta Gil representava exatamente o perfil que deveria ser blindado por políticas públicas. Mulher negra, body positive, LGBTQIA+, com trabalho consistente há décadas. Recebeu migalhas.

O que muda agora

Nada, se depender da inércia parlamentar.

A coalizão presidencial opera por lógica fisiológica. Cultura não gera emendas volumosas. Não financia campanhas pesadas. Não garante votos em bases eleitorais tradicionais.

O documentário sobre Preta Gil circulará nas redes. Gerará comoção momentânea. Políticos publicarão notas de pesar genéricas. Em três semanas, o ciclo se encerra.

Até o próximo artista morrer. Até a próxima comoção. Até o próximo documentário que denuncia involuntariamente.

Histórico de omissões

Desde a redemocratização, seis coalizões presidenciais diferentes governaram o Brasil. Todas prometeram valorizar a cultura. Nenhuma cumpriu integralmente.

  • 1985-1990: Sarney criou a Lei Sarney, depois abandonou sua implementação
  • 1995-2002: FHC extinguiu o MinC, depois o recriou sem estrutura
  • 2003-2016: PT ampliou orçamento, mas não blindou institucionalmente
  • 2019-2022: Bolsonaro destruiu sistematicamente o setor
  • 2023-atual: Lula III recriou ministério, mas sem prioridade política real

O padrão é cristalino. A cultura serve para fotografia. Não para investimento estratégico.

O Kanalha e o simbolismo involuntário

O cantor não pretendia fazer análise política. Queria homenagear quem amou.

Mas sua fala carrega peso estrutural. Representa milhares de artistas que constroem carreiras na precariedade. Que amam, criam e morrem sem que a coalizão presidencial mova um dedo.

"Foi a última paixão dela". A frase ficará. Não apenas como registro romântico. Mas como epitáfio de uma relação falida entre Estado brasileiro e sua produção cultural.

Enquanto a coalizão presidencial negociar cargos e orçamentos, a cultura continuará órfã. Documentários continuarão sendo lançados. Artistas continuarão morrendo. E o ciclo permanecerá intacto.