Política

Ciro evita Bolsonaro e aposta em Caiado e Renan para 2026

Ciro evita Bolsonaro e aposta em Caiado e Renan para 2026
Foto: redir.folha.com.br

Ciro Gomes traçou uma linha clara no mapa eleitoral de 2026. Ao listar publicamente suas preferências para a Presidência da República — Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) —, o ex-ministro fez questão de excluir o nome óbvio que ninguém pediu que ele comentasse: Flávio Bolsonaro.

A declaração veio neste sábado (18), em evento no Ceará, onde Ciro prepara sua candidatura ao governo estadual sob a sigla do PSDB. Tecnicamente, o partido ainda não bateu o martelo sobre quem apoiar na corrida presidencial. Na prática, Ciro já distribuiu as cartas.

O silêncio que fala mais alto

A ausência de Flávio Bolsonaro da lista não é acidente. É declaração política. Ciro poderia ter ignorado a pergunta, desconversado ou feito aquela dança retórica que políticos experientes dominam. Preferiu cravar nomes — e deixar um de fora.

Num ambiente onde a direita brasileira se reorganiza em múltiplos polos, a omissão funciona como veto explícito. Ciro sinaliza ao PSDB e ao próprio eleitorado: há limites para a engenharia de alianças. Bolsonarismo não entra.

A escolha de Caiado faz sentido estratégico. O governador de Goiás construiu distância calculada da família Bolsonaro desde 2022, embora compartilhe parte do mesmo eleitorado. Representa uma direita administrativa, de resultados, que Ciro pode vender como alternativa palatável.

Renan Santos e o enigma evangélico

A menção a Renan Santos, do partido Missão, chama mais atenção. Trata-se de figura com penetração no segmento evangélico — terreno onde Ciro historicamente patina. A citação pode indicar dois movimentos simultâneos: abertura a novas bases eleitorais e reconhecimento de que o voto de fé virou moeda incontornável.

Santos nunca teve expressão nacional além de nichos específicos. Colocá-lo no mesmo patamar de Caiado soa a recado interno: o PSDB precisa dialogar com o eleitorado conservador sem abraçar o bolsonarismo raiz. É a velha tentativa de pescar no aquário alheio sem sujar as mãos.

PSDB entre a cruz e a irrelevância

O contexto dessa declaração importa tanto quanto seu conteúdo. Ciro migrou para o PSDB após décadas no PDT — legenda que ajudou a construir e da qual se divorciou em termos nada amigáveis. Chegou ao partido paulista quando este já virava sombra do que foi.

O PSDB de 2026 não define eleições nacionais. Mas ainda controla máquinas estaduais importantes e dispõe de tempo de TV que, em ano eleitoral, vale ouro. A fala de Ciro funciona como lançamento de candidatura indireta: "Estou aqui, tenho palanque, e sei quem não quero por perto".

A estratégia se apoia em precedente conhecido: o antipetismo sem bolsonarismo. Ciro tenta, pela enésima vez, ocupar esse espaço — que teoricamente existe nas pesquisas mas nunca se materializou em votos suficientes nas urnas.

O xadrez cearense por trás da jogada

A disputa pelo governo do Ceará complica e explica tudo. Ciro enfrenta adversários locais poderosos, alguns eventualmente alinhados com Brasília bolsonarista. Demarcar terreno agora facilita alianças futuras e dificulta acusações de oportunismo.

Ao cravar posição sobre 2026 ainda em julho, Ciro faz o inverso do que costuma ocorrer: geralmente candidatos a governador evitam compromissos presidenciais até o último minuto, preservando espaço de negociação. Ele antecipa, arrisca, aposta que clareza vale mais que flexibilidade.

Resta saber se o PSDB seguirá o roteiro. Partidos em crise de identidade costumam aceitar qualquer boia. Mas também tendem a rachar quando as lideranças puxam em direções opostas. Ciro acabou de puxar. Forte.

A eleição de 2026 ainda está longe. Mas suas trincheiras já começam a ser cavadas. E Ciro Gomes acaba de plantar sua bandeira num terreno específico: longe dos Bolsonaro, perto de quem possa lhe render votos sem custo de imagem. Se funcionará, só outubro dirá. Que ele tentará de novo, isso já sabemos.