Ceuta expõe colonialismo vivo e desafia reforma política
Setenta e duas pessoas morreram tentando cruzar cercas de aço em Ceuta na semana passada. Soldados armados, jovens africanos emergindo do mar, barreiras eletrificadas. A cena não é nova, mas a intensidade expõe algo maior: o colonialismo nunca terminou no norte da África.
Ceuta é um enclave espanhol em território marroquino desde 1668. Melilla, outra cidade espanhola na costa africana, segue a mesma lógica. São fragmentos territoriais de um império que formalmente acabou, mas que persiste na geografia política contemporânea.
A estrutura que permanece
O norte da África carrega marcas profundas da partilha colonial europeia. Marrocos foi protetorado francês e espanhol até 1956. A Argélia conquistou independência da França apenas em 1962, após guerra brutal. A Tunísia, a Líbia — todas emergiram de processos traumáticos de descolonização.
Mas a descolonização formal não dissolveu as estruturas econômicas e políticas criadas pela dominação europeia. Fronteiras artificiais cortaram etnias e criaram Estados frágeis. Elites locais herdaram sistemas extrativistas desenhados para exportar riqueza, não distribuí-la.
O resultado está nas estatísticas. A taxa de desemprego juvenil no norte da África supera 30% em vários países. A migração irregular para a Europa tornou-se estratégia de sobrevivência para milhões.
Ceuta como sintoma
As cercas de Ceuta funcionam como filtro violento entre dois mundos economicamente desiguais. De um lado, a União Europeia, com PIB per capita médio de 38 mil dólares. Do outro, países onde a média mal ultrapassa 4 mil dólares.
Essa assimetria não é acidente histórico. É consequência direta de séculos de extração colonial seguidos por décadas de relações neocoloniais. Acordos comerciais desiguais, dívida externa impagável, interferência em processos políticos locais — o repertório é conhecido.
A presença militar espanhola em solo africano simboliza a continuidade dessa lógica. Ceuta e Melilla não são apenas anomalias geográficas. São lembretes físicos de que a soberania africana permanece incompleta.
O paralelo brasileiro
Para observadores brasileiros, especialmente aqueles envolvidos em debates sobre reforma política brasil, a crise de Ceuta oferece lições importantes. A persistência de estruturas coloniais não se limita a enclaves territoriais.
No Brasil, debates sobre reforma política frequentemente esbarram em heranças institucionais do período colonial e imperial. Concentração de poder, clientelismo, exclusão de populações marginalizadas — padrões que ecoam mecanismos de dominação históricos.
A questão migratória também ressoa localmente. O Brasil recebe fluxos crescentes de venezuelanos, haitianos, africanos. A forma como o Estado brasileiro responde a esses movimentos reflete escolhas políticas sobre quem pertence e quem não pertence à comunidade nacional.
Quem contra quem
O conflito em Ceuta opõe Estados europeus determinados a manter fronteiras herméticas contra populações africanas que buscam oportunidades de sobrevivência econômica. Mas reduzir a questão a segurança fronteiriça ignora a raiz do problema.
A migração em massa do norte da África para a Europa é sintoma de desequilíbrios estruturais criados e mantidos por séculos de dominação. Enquanto esses desequilíbrios persistirem, nenhuma cerca será alta o bastante.
Soluções possíveis
Resolver a crise migratória exige enfrentar suas causas. Isso significa repensar relações econômicas entre Europa e África, cancelar dívidas impagáveis, permitir desenvolvimento industrial africano, respeitar soberania política genuína.
Também significa questionar a legitimidade de enclaves coloniais em pleno século XXI. A devolução de Ceuta e Melilla ao Marrocos não resolveria a crise sozinha, mas sinalizaria reconhecimento de injustiças históricas.
Para o Brasil, a lição é clara. Reformas políticas efetivas precisam confrontar heranças coloniais embutidas nas instituições. Caso contrário, replicaremos sob novas formas as mesmas exclusões e assimetrias do passado.
As 72 mortes em Ceuta não são tragédia isolada. São resultado previsível de um sistema que nunca foi genuinamente desmantelado. Enquanto estruturas coloniais persistirem, pessoas continuarão morrendo para atravessá-las.