Política

Centenário na academia expõe fragilidade do sistema previdenciário

Centenário na academia expõe fragilidade do sistema previdenciário
Foto: Metrópoles

Dave Keaggy celebrou seu centésimo aniversário da forma mais improvável possível: levantando peso numa academia em Ohio. Enquanto políticos de Brasília debatem reformas previdenciárias sob a lógica do presidencialismo de coalizão, o norte-americano estabelece uma meta que desafia todas as projeções atuariais: chegar aos 132 anos com saúde plena.

A cena não é apenas curiosa. É política.

O choque demográfico que ninguém calculou

Quando sistemas previdenciários foram desenhados no século XX, a expectativa de vida girava em torno dos 65 anos. A aposentadoria seria breve. O modelo funcionava. Keaggy, nascido em 1925, já viveu 35 anos além dessa previsão original. E não mostra sinais de desaceleração.

No Brasil, o presidencialismo de coalizão opera sob premissas semelhantes: cálculos de curto prazo, arranjos temporários, remendos para crises imediatas. A reforma da previdência de 2019 levou dois anos de negociação entre governo e base aliada. Estabeleceu idade mínima de 65 anos para homens. Keaggy já a ultrapassou em três décadas e meia.

Coalizões frágeis diante de tendências sólidas

O caso expõe a fragilidade estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro. Governos montam maiorias legislativas mediante concessões, cargos, emendas parlamentares. O horizonte raramente ultrapassa quatro anos. Reformas estruturais, quando acontecem, nascem desatualizadas.

Dave Keaggy mantém rotina de exercícios cinco vezes por semana. Treina força, resistência, equilíbrio. Sua meta de 132 anos não é delírio: baseia-se em projeções científicas sobre longevidade humana. Enquanto isso, o Congresso brasileiro negocia orçamentos anuais como se demografia fosse estática.

A matemática é implacável. Se a expectativa de vida continuar aumentando — e todos os indicadores apontam nessa direção —, sistemas previdenciários colapsam. Não importa quantas coalizões sejam formadas.

O precedente internacional que incomoda

Estados Unidos enfrentam dilema semelhante. O Social Security, programa de aposentadorias criado em 1935, opera no vermelho desde 2010. Projeções indicam esgotamento total dos fundos até 2034. Democratas e republicanos formam coalizões pontuais, mas evitam o tema explosivo: aumentar idade de aposentadoria ou cortar benefícios.

Dave Keaggy representa a ponta extrema de uma curva que se desloca inexoravelmente. Cada geração vive mais que a anterior. Os baby boomers americanos, nascidos entre 1946 e 1964, começam a se aposentar em massa. O sistema não aguenta.

No Brasil, o presidencialismo de coalizão produziu seis reformas previdenciárias desde 1998. Todas insuficientes. Todas resultado de acordos parlamentares que privilegiaram sobrevivência política sobre sustentabilidade fiscal.

Quem paga a conta da longevidade

O conflito é cristalino: contribuintes ativos versus aposentados longevos. Quanto mais gente vive além dos 100 anos, maior o rombo. Quanto mais o presidencialismo de coalizão adia decisões impopulares, pior o ajuste futuro.

Keaggy trabalhou na indústria aeroespacial. Aposentou-se aos 65. Viveu 35 anos recebendo benefícios. Se chegar aos 132, serão 67 anos de aposentadoria — mais tempo recebendo do que contribuindo. Multiplicado por milhões, o modelo implode.

A solução não está em vilipendiar centenários saudáveis. Está em reconhecer que sistemas desenhados para outro mundo demográfico precisam ser reconstruídos. Mas o presidencialismo de coalizão, por natureza, privilegia remendo sobre refundação.

A lição que o Congresso ignora

Dave Keaggy treina porque entendeu algo simples: longevidade exige preparação contínua. Não há atalho. Não há gambiarra. Décadas de exercício produzem um corpo centenário funcional.

O mesmo vale para sistemas políticos. Presidencialismo de coalizão brasileiro opera na lógica inversa: improvisação constante, acordos de última hora, reformas que nascem velhas.

Enquanto Keaggy comemora 100 anos levantando peso, Brasília celebra a formação de mais uma coalizão parlamentar para aprovar orçamento que ignora demografia. O centenário americano tem plano para os próximos 32 anos. O Congresso brasileiro mal consegue planejar os próximos 32 meses.

A conta chegará. E não negocia.