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Carros elétricos parados: a nova questão regulatória no Brasil

Carros elétricos parados: a nova questão regulatória no Brasil
Foto: canaltech.com.br

Um carro elétrico novo pode ficar parado por meses sem perder carga significativa. Mas ninguém avisou isso aos milhares de brasileiros que ainda hesitam na compra.

A desinformação sobre autonomia de baterias representa hoje um dos principais freios à eletrificação da frota nacional — e expõe uma lacuna regulatória que pode, em breve, chegar aos tribunais.

O que está em jogo

Diferentemente de veículos a combustão, onde a bateria de 12V descarrega em semanas de inatividade, carros elétricos modernos entram automaticamente em modo de baixíssimo consumo. A bateria de tração permanece praticamente intacta.

Fabricantes como BYD, Chevrolet e Hyundai garantem: até 90 dias parado não representa risco operacional. Alguns modelos suportam seis meses sem uso significativo.

O problema não é técnico. É jurídico.

Onde o Judiciário entra

Não existe no Brasil regulamentação específica sobre informação obrigatória de autonomia em repouso para veículos elétricos. O Código de Defesa do Consumidor prevê direito à informação adequada — mas o Contran e a Anatel ainda não estabeleceram protocolos claros.

Isso cria terreno fértil para litígios. Consumidores que acreditam ter sido mal informados sobre características de descarregamento já começam a questionar concessionárias. A ausência de padronização na comunicação técnica coloca revendedores em posição vulnerável.

Precedentes internacionais indicam o caminho. Na União Europeia, desde 2021, fabricantes são obrigados a detalhar taxas de autodescarga em manuais de proprietário. Nos Estados Unidos, a EPA exige testes padronizados.

Aqui, cada montadora comunica à sua maneira. Ou não comunica.

A dimensão do mercado

O Brasil vendeu 156 mil veículos eletrificados em 2024 — crescimento de 87% sobre o ano anterior. A projeção para 2025 supera 230 mil unidades.

Com a expansão da frota, aumenta proporcionalmente o risco de conflitos consumeristas. E o Judiciário brasileiro, historicamente, tende a favorecer o consumidor em casos de assimetria informacional.

A questão técnica é simples: sistemas de gerenciamento de bateria (BMS) em veículos elétricos modernos mantêm células-íon de lítio em estado de preservação quando o carro está desligado. O consumo fantasma raramente ultrapassa 1% de carga por semana.

Mas simplicidade técnica não se traduz em clareza regulatória.

Quem perde com a indefinição

A falta de normatização prejudica principalmente o consumidor de menor renda, que compra veículo usado. No mercado secundário de elétricos, ainda incipiente, não há histórico consolidado de depreciação por degradação de bateria.

Compradores de seminovos ficam expostos. Vendedores podem omitir informações sobre estado real da bateria após longos períodos de inatividade — prática que, na ausência de regulação específica, dificilmente configurará crime.

O poder judiciário análise desses casos terá que preencher vácuos deixados pelo legislativo. Trata-se de função atípica, mas recorrente no Brasil: juízes legislando onde deputados não chegaram.

O que fabricantes dizem

Em comunicados técnicos, montadoras recomendam manter carga entre 20% e 80% quando o veículo ficará parado. Algumas sugerem desconectar a bateria auxiliar de 12V em paradas superiores a três meses.

São orientações válidas. Mas não substituem norma cogente.

A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) reconhece a lacuna e articula proposta de autorregulação. Seria tarde demais: casos já tramitam em juizados especiais.

Contexto político

A eletrificação da frota nacional integra compromissos climáticos do Brasil no Acordo de Paris. O governo federal oferece incentivos fiscais para produção e compra de elétricos.

Mas incentivo sem regulação gera distorção. O mesmo Estado que subsidia a compra não estabelece regras claras de informação ao consumidor.

Trata-se de padrão conhecido: políticas públicas de estímulo econômico avançam mais rápido que arcabouços jurídicos de proteção.

E quem paga a conta, sempre, é quem está na ponta.