Política

Bolsonarismo monta palanque senatorial e testa crise democracia

Bolsonarismo monta palanque senatorial e testa crise democracia
Foto: Metrópoles

A convenção do PL no Distrito Federal neste domingo (2) funcionou como ensaio geral do projeto bolsonarista para 2026. Com Flávio Bolsonaro ao centro do palco, o partido homologou as candidaturas de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado, além de declarar apoio à deputada Celina Leão para o governo local.

O movimento não é apenas eleitoral. É estratégico.

A blindagem institucional pelo voto

Michelle e Kicis representam duas faces do bolsonarismo no Congresso. A ex-primeira-dama carrega o capital eleitoral do marido inelegível. A deputada traz o currículo de confronto institucional — presidiu a CCJ da Câmara durante episódios críticos do governo Bolsonaro e foi linha de frente na defesa de investigados pelo 8 de Janeiro.

Ambas no Senado significam foro privilegiado. Significa também duas vozes permanentes em votações de impeachment, indicações ao STF e ao Ministério Público. Não é detalhe: é arquitetura de poder.

A presença de Flávio Bolsonaro na convenção sublinha o óbvio. O clã não está em retirada. Está em reorganização.

O precedente histórico que incomoda

A estratégia tem paralelo na história recente da América Latina. Líderes populistas de direita, após derrotas ou impedimentos, frequentemente buscam refúgio institucional em mandatos legislativos. Argentina e Peru oferecem exemplos claros.

No Brasil, o modelo é mais sofisticado. A família Bolsonaro não apenas busca mandatos. Busca mandatos específicos, com imunidades específicas, em casas legislativas específicas.

O Senado brasileiro, historicamente conservador e com menor rotatividade que a Câmara, oferece plataforma ideal para projetos de longo prazo. Mandatos de oito anos permitem atravessar mais de um ciclo presidencial. Permitem construir narrativas, articular blocos, bloquear agendas.

Crise democrática ou polarização funcional?

Analistas dividem-se sobre o significado profundo desse movimento. Para um campo, trata-se de mais um capítulo da crise democracia Brasil, iniciada com o impeachment de 2016 e agravada pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. A ocupação de cadeiras no Senado por figuras identificadas com o questionamento das instituições seria sintoma de erosão democrática.

Para outro campo, é polarização normal em democracias competitivas. O bolsonarismo, derrotado em 2022, usa instrumentos legais para manter-se relevante. Faz oposição dentro das regras do jogo.

A diferença entre as duas interpretações não é trivial. Define se estamos diante de ameaça real ou de disputa política rotineira.

O tabuleiro de 2026 começa agora

A convenção do PL não acontece no vazio. Acontece enquanto investigações da Polícia Federal sobre tentativa de golpe avançam. Acontece enquanto Bolsonaro permanece inelegível e judicialmente vulnerável. Acontece enquanto o governo Lula patina em aprovação e enfrenta desgaste econômico.

O apoio declarado a Celina Leão no DF completa o mosaico. A deputada representa ala palatável do bolsonarismo — menos ideológica, mais pragmática. É ponte com o centro. É projeto de poder sem as arestas mais ásperas de Jair Bolsonaro.

Se Michelle e Kicis chegarem ao Senado e Celina ao Buriti, o PL terá demonstrado capacidade de renovação sem ruptura. Capacidade de manter a base mobilizada enquanto negocia com establishment.

O que vem depois

A resposta das instituições será decisiva. O TSE já sinalizou vigilância sobre discurso antidemocrático nas campanhas. O STF mantém investigações abertas. O Congresso observa, dividido entre aliados e adversários do bolsonarismo.

Mas instituições funcionam dentro de limites. Não podem vetar candidaturas sem base legal clara. Não podem impedir movimentos políticos legítimos apenas por discordância ideológica.

A convenção deste domingo colocou as cartas na mesa. O bolsonarismo não é fenômeno passageiro. É força política organizada, com projeto de médio prazo e estratégia institucional definida.

Resta saber se a democracia brasileira conseguirá processar esse conflito sem fraturas irreversíveis. A resposta virá nas urnas de 2026, mas o jogo começou agora.