Baixada Fluminense: o laboratório da guinada eleitoral brasileira
A avenida Governador Leonel de Moura Brizola, artéria comercial de Duque de Caxias, guarda uma ironia histórica em seu próprio nome. Batizada em homenagem ao maior líder trabalhista do Rio de Janeiro, a via testemunha hoje o fenômeno oposto: a conversão em massa de eleitores de esquerda ao bolsonarismo.
Não se trata de caso isolado. Trata-se de sintoma.
O epicentro da virada
Duque de Caxias representa o tipo de município que decidiu eleições presidenciais nas últimas duas décadas. Periferia urbana, economia informal robusta, população majoritariamente negra e parda. Território historicamente petista.
A migração eleitoral documentada na Baixada Fluminense não é acidente geográfico. É laboratório político. O que acontece ali precede movimentos nacionais.
Entre 2018 e 2022, a região registrou deslocamento de aproximadamente 30% do eleitorado petista para candidaturas bolsonaristas. Eleitores que votaram em Lula em 2006 e 2010 carregaram Jair Bolsonaro à vitória em 2018. Parte retornou em 2022, mas a fissura permanece.
Lula versus Flávio: a disputa que importa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro transformaram o Rio de Janeiro em tabuleiro particular. Não por acaso.
Flávio comanda a máquina bolsonarista no estado com eficiência que seu pai nunca demonstrou. Articula prefeituras, controla estruturas partidárias, negocia com evangélicos e milicianos. Representa a versão pragmática do bolsonarismo — menos ideológica, mais transacional.
Lula, por sua vez, enxerga no Rio a possibilidade de reverter sua maior derrota simbólica. Perdeu o estado em todos os turnos desde 2018. Para um projeto de reconstrução hegemônica petista, reconquistar o Rio não é opcional.
A Baixada Fluminense funciona como termômetro dessa disputa. Quem vencer Duque de Caxias, São João de Meriti e Nova Iguaçu nas eleições municipais de 2024 sinaliza vantagem para 2026.
Anatomia da conversão
O que explica a migração?
Três fatores convergem:
- Deterioração dos serviços públicos sob governos petistas estaduais e municipais — a gestão do Rio entre 2006 e 2014 produziu desencanto territorial específico;
- Expansão evangélica — igrejas neopentecostais criaram infraestrutura comunitária que o Estado abandonou, com mensagem política explicitamente anti-PT;
- Segurança pública — discurso de confronto ao crime organizado encontrou ressonância em territórios sitiados pela violência, independentemente da eficácia prática das propostas.
Não houve conversão ideológica profunda. Houve transação. Eleitores da Baixada não se tornaram neoliberais ou conservadores nos costumes. Buscaram alternativa ao que percebiam como abandono.
Precedente histórico
A dinâmica remete ao colapso do trabalhismo nos anos 1980. O PDT de Brizola dominou a Baixada entre 1982 e 1994. Perdeu esse eleitorado para Lula em 2002 exatamente pelo mesmo processo: percepção de que as promessas não se materializaram em melhorias concretas.
O PT reproduz agora o erro que beneficiou sua ascensão. Tomou como garantido um eleitorado que exige retribuição tangível. Duque de Caxias não vota por ideologia. Vota por resultado.
Flávio Bolsonaro compreendeu isso. Seu bolsonarismo fluminense não replica o discurso do pai. Negocia, cede, acomoda interesses locais. Funciona como máquina política tradicional — clientelista, pragmática, eficiente.
O que está em jogo
Se Lula perder novamente o Rio em 2026, seu projeto de reconstrução petista encontra limite intransponível. O estado representa 11% do eleitorado nacional e funciona como vitrine simbólica.
Se Flávio consolidar hegemonia estadual, constrói plataforma própria que pode rivalizar com o núcleo bolsonarista tradicional — e eventualmente superá-lo.
A disputa na Baixada Fluminense, portanto, não é regional. É nacional. Define qual versão da política brasileira prevalecerá: o petismo reformado de Lula ou o bolsonarismo pragmático de Flávio.
Duque de Caxias decidirá. Como sempre fez.