Política

Anomalia genital rara expõe lacunas na saúde pública brasileira

Anomalia genital rara expõe lacunas na saúde pública brasileira
Foto: Metrópoles

Uma em cada 70 mil mulheres nasce com o canal vaginal duplicado. A condição, chamada tecnicamente de septo vaginal longitudinal completo, raramente chega aos consultórios médicos antes da adolescência. Quando chega, já carrega anos de constrangimento silencioso.

A ginecologista Lívia Saviolo explicou recentemente os aspectos clínicos da malformação. Mas o caso levanta questões que vão além da anatomia: por que anomalias congênitas detectáveis passam despercebidas por tanto tempo no Brasil?

O que a medicina sabe

A duplicação vaginal ocorre durante o desenvolvimento embrionário. Entre a sexta e a décima primeira semana de gestação, os ductos müllerianos se fundem para formar o útero e a vagina. Quando essa fusão falha parcialmente, surgem variações anatômicas.

Algumas mulheres desenvolvem dois úteros separados. Outras, dois colos uterinos. Há casos em que apenas o canal vaginal se divide, criando um septo — parede de tecido — que o particiona em dois.

Segundo Saviolo, a condição pode gerar desconforto durante relações sexuais, dificuldade no uso de absorventes internos e, eventualmente, complicações obstétricas. O tratamento é cirúrgico e relativamente simples: remoção do septo sob anestesia.

O que o sistema não detecta

Aqui reside o problema estrutural. Malformações müllerianas são diagnosticáveis em ultrassonografias pélvicas de rotina. Mas a cobertura de exames ginecológicos preventivos no SUS permanece irregular.

Dados do Ministério da Saúde indicam que apenas 42% das adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos tiveram consulta ginecológica nos últimos dois anos. Nas regiões Norte e Nordeste, o índice cai para 31%.

Sem acompanhamento precoce, anomalias como o septo vaginal só são identificadas quando a paciente já enfrenta sintomas — dor, sangramento irregular, impossibilidade de penetração. Ou seja: quando o constrangimento já se instalou.

Saúde sexual como política

A discussão sobre malformações genitais femininas toca um nervo exposto da gestão pública brasileira: a recusa em tratar saúde sexual como prioridade orçamentária.

Desde 2016, programas de saúde da mulher perderam 38% do financiamento federal em valores corrigidos. Consultórios especializados foram fechados. Equipamentos obsoletos não foram substituídos.

O resultado é previsível. Mulheres descobrem condições tratáveis tarde demais. Ou não descobrem nunca.

Entre 2019 e 2023, cirurgias corretivas de malformações müllerianas no SUS caíram 27%, segundo dados do DataSUS. Não porque os casos diminuíram. Mas porque o acesso ao diagnóstico encolheu.

O silêncio como sintoma

Há ainda a dimensão cultural. Conversar sobre anatomia genital feminina segue sendo tabu em boa parte do território nacional. Meninas crescem sem vocabulário para descrever o próprio corpo.

Quando surge a dor ou a diferença, falta linguagem para reportá-la. Faltam adultos preparados para ouvir. E faltam médicos nos postos de saúde.

A lacuna de conhecimento retroalimenta a lacuna de acesso. Mulheres não buscam ajuda porque não sabem que precisam. E quando buscam, encontram filas.

"A maioria das pacientes com septo vaginal que atendi ao longo da carreira chegou ao consultório já na vida adulta, após anos de desconforto", relatou a ginecologista em entrevista.

Precedente internacional

Outros países trataram a questão como problema de saúde pública há décadas. No Reino Unido, o exame ginecológico faz parte do protocolo pediátrico de rotina desde 1998. Na França, ultrassonografias pélvicas são oferecidas gratuitamente a todas as adolescentes aos 14 anos.

Os resultados são mensuráveis. Taxa de diagnóstico precoce acima de 85%. Cirurgias corretivas realizadas antes do início da vida sexual. Redução drástica de complicações psicológicas.

No Brasil, a detecção permanece acidental. E o sofrimento, evitável, se estende por anos.

O custo da negligência

Tratar malformações congênitas cedo sai mais barato que remediar complicações tardias. Uma cirurgia de septoplastia vaginal custa ao SUS cerca de R$ 1.200. Tratar infecções recorrentes, endometriose secundária ou sequelas obstétricas pode custar dez vezes mais.

Mas a conta maior é social. Mulheres que vivem anos com dor ou disfunção sexual não diagnosticadas enfrentam impactos na saúde mental, nos relacionamentos e na vida profissional.

A anomalia rara expõe uma falha comum: o Estado brasileiro ainda trata saúde feminina como rubrica negociável. E as mulheres seguem pagando o preço.