Amapá e o fenômeno da pulverização do sistema partidário
Uma ex-primeira-dama municipal lidera. Um senador em exercício aparece em terceiro. Seis nomes disputam efetivamente a vaga. A corrida ao Senado no Amapá cristaliza o que analistas chamam de hiperfragmentação do sistema partidário brasileiro — fenômeno que transformou a política nacional numa arena sem centros gravitacionais claros.
Pesquisa Paraná Pesquisas divulgada nesta semana mostra Rayssa Furlan, ex-primeira-dama de Macapá, à frente nos dois cenários testados para a eleição de 2026. Lucas Barreto e o senador Randolfe Rodrigues aparecem na sequência. O levantamento foi registrado no TSE sob protocolo AP-05405/2025 e ouviu 800 eleitores entre 14 e 17 de janeiro.
O tabuleiro fragmentado
No primeiro cenário, com oito nomes, Furlan marca 23,1% das intenções de voto. Barreto tem 16,4%. Randolfe, 13,5%. Mais relevante que os números: a distância entre primeiro e sexto lugar não ultrapassa 20 pontos percentuais. Tecnicamente, há meia dúzia de candidatos viáveis.
A margem de erro de 3,5 pontos percentuais embaralha ainda mais o cenário. Brancos e nulos somam 20,1%. Indecisos, 11,6%. Mais de 30% do eleitorado permanece em campo aberto.
O segundo cenário, sem Giancarla Bento, pouco altera a configuração. Furlan sobe para 24,4%. Barreto para 17,1%. Randolfe para 14,4%. A fragmentação persiste.
Sistema partidário em esfacelamento
O Amapá não é aberração. É laboratório. O estado expõe em escala reduzida a pulverização que domina o sistema partidário brasileiro desde a redemocratização — mas que se acelerou dramaticamente após 2014.
Em 1994, seis partidos controlavam 80% da Câmara dos Deputados. Em 2022, esse número subiu para dez partidos. A diferença: hoje nenhum deles alcança 15% das cadeiras sozinho. O Brasil opera com 29 legendas representadas no Congresso Nacional.
Cientistas políticos identificam três fatores estruturais:
- Sistema eleitoral proporcional de lista aberta incentiva candidaturas personalistas
- Financiamento público via fundo eleitoral fortaleceu legendas pequenas
- Coligações partidárias permitiram sobrevivência de siglas nanicos até 2020
A consequência direta: governabilidade por articulação permanente. Presidentes dependem de coalizões com oito, dez, doze partidos. Governadores também. A negociação substitui programa.
O caso Randolfe
A posição de Randolfe Rodrigues na disputa ilustra outro aspecto da fragmentação: mandatos não garantem reeleição automática. Senador desde 2011, com projeção nacional como líder da oposição a Bolsonaro, ele aparece numericamente em terceiro.
Randolfe mudou cinco vezes de partido desde que entrou na política. PSOL, Rede, sem partido, Rede novamente, PSB. Cada mudança reflete cálculos táticos de sobrevivência em sistema partidário sem amarras ideológicas firmes.
Sua trajetória espelha a de dezenas de parlamentares que tratam legendas como veículos descartáveis. Fidelidade partidária existe juridicamente desde 2007. Na prática, janelas de transferência e julgamentos casuísticos do TSE esvaziaram a norma.
Furlan e a política municipal como trampolim
Rayssa Furlan representa fenômeno crescente: lideranças municipais que saltam diretamente para disputas federais. Ex-primeira-dama de Macapá, casada com o ex-prefeito Clécio Luís, ela dispensa experiência legislativa prévia.
O padrão se repete nacionalmente. Deputados federais eleitos com base municipal — não estadual — cresceram de 18% em 1998 para 34% em 2022. Senadores com passagem por prefeituras duplicaram no mesmo período.
Sistema partidário fragmentado favorece esse perfil. Sem estruturas estaduais coesas, partidos aceitam candidaturas com capital político local. A nacionalização da disputa ocorre apenas no horário eleitoral — quando ocorre.
Precedentes e projeções
O Amapá viveu rotatividade intensa no Senado. Desde 1994, apenas dois senadores conseguiram reeleição. A volatilidade local excede a média nacional — mas a distância diminui a cada ciclo.
Eleições de 2026 testarão se fragmentação extrema atinge ponto de inflexão. Movimentos por reforma política ganham tração. Propostas incluem financiamento exclusivamente público, cláusula de barreira mais rígida, voto em lista fechada.
Nenhuma prosperou até aqui. Fragmentação beneficia ocupantes do sistema. Parlamentares não reformam regras que os elegeram.
Resta ao eleitor navegar tabuleiro com 29 peças, nenhuma dominante. No Amapá como no Brasil, a pergunta permanece: quem governa num sistema sem governantes claros?