Política

Alfabetização expõe fragilidade do presidencialismo de coalizão

Alfabetização expõe fragilidade do presidencialismo de coalizão
Foto: Poder360

Doze Estados brasileiros não atingiram a meta nacional de alfabetização em 2025. Sete deles são governados pela direita. Cinco pela esquerda. O resultado expõe uma fratura no sistema educacional que transcende divisões partidárias — e revela os limites estruturais do presidencialismo de coalizão quando o tema é política pública de longo prazo.

A meta era clara: 80% das crianças alfabetizadas até o final do ciclo inicial. O Ceará de Elmano de Freitas (PT) liderou com 84%. No extremo oposto, Estados ricos e pobres, de esquerda e direita, falharam juntos.

O que os números revelam

A distribuição partidária dos fracassos é quase proporcional à representação nacional. A direita governa mais Estados. Logo, aparece mais entre os que falharam. Mas essa leitura superficial esconde o problema real.

O presidencialismo de coalizão brasileiro depende de negociações federativas constantes. Recursos do MEC chegam aos Estados por meio de pactos políticos. Programas federais exigem contrapartidas locais. A continuidade das políticas educacionais fica refém de ciclos eleitorais descompassados.

Governadores assumem em janeiro. Presidentes também. Mas suas agendas raramente se alinham. O resultado: descontinuidade administrativa justamente onde a educação exige persistência de décadas.

Ceará como precedente

O caso cearense merece atenção. Elmano herdou uma política de alfabetização consolidada há mais de 20 anos. Sobreviveu a governos de PSDB, PDT e PT. Atravessou crises econômicas e mudanças ministeriais em Brasília.

Essa continuidade não é acidente. É projeto deliberado de Estado — não de governo. O modelo cearense blinda a alfabetização das turbulências do presidencialismo de coalizão. Cria incentivos municipais permanentes. Estabelece metas técnicas impermeáveis a barganhas políticas.

Os outros 11 Estados que falharam operam sob lógica oposta. Mudam prioridades a cada eleição. Negociam recursos educacionais como moeda de troca política. Submetem a alfabetização infantil aos humores da coalizão governante.

Direita, esquerda e o falso debate

A divisão ideológica é cortina de fumaça. Estados de direita e esquerda fracassam pelos mesmos motivos estruturais. Falta coordenação federativa estável. Falta isolamento técnico das políticas educacionais. Falta punição eleitoral para quem falha na alfabetização.

O presidencialismo de coalizão brasileiro não foi desenhado para políticas de maturação lenta. Foi pensado para acomodar divergências regionais imediatas. Para distribuir cargos e recursos entre aliados. Para viabilizar maiorias parlamentares temporárias.

A educação básica exige exatamente o oposto: consensos duradouros, gestão técnica protegida e avaliação de resultados que transcende mandatos.

Quem paga a conta

Crianças de 6 e 7 anos não votam. Seus pais raramente elegem governadores com base em taxas de alfabetização. O tema não mobiliza redes sociais. Não gera manchetes diárias. Não alimenta a máquina de guerra partidária.

Por isso o presidencialismo de coalizão o negligencia. Os custos são invisíveis no curto prazo. Os benefícios só aparecem uma geração depois. Nenhum governador será reeleito por ter alfabetizado bem em 2025. Mas todos herdarão as consequências do fracasso em 2040.

O caminho cearense

Elmano governa pela esquerda. Mas usa ferramentas que transcendem ideologia: meritocracia para diretores escolares, bônus para municípios bem-avaliados, monitoramento individual de cada criança.

Esse modelo poderia ser replicado. Exigiria, porém, renúncia parcial ao loteamento político das secretarias de educação. Demandaria continuidade orçamentária protegida das oscilações da coalizão. Imporia metas técnicas sobre conveniências partidárias.

Nada disso é compatível com a forma atual do presidencialismo de coalizão. Tudo isso é indispensável para superar o fracasso dos 12 Estados.

Precedente perigoso

Se doze Estados podem ficar abaixo da meta de alfabetização sem consequências políticas graves, qual o incentivo para melhorar? Se a divisão partidária serve apenas para apontar culpados do outro lado, quem assume responsabilidade real?

O presidencialismo de coalizão vive de compromissos. Mas compromisso com crianças de 6 anos não rende cargos no segundo escalão. Não garante votos na reforma tributária. Não assegura governabilidade imediata.

Por isso fracassa. E continuará fracassando enquanto alfabetização for tratada como política de governo — não como compromisso de Estado acima das coalizões.