Política

Alckmin recebe Requião Filho em Brasília: a nova geometria do PSB

Alckmin recebe Requião Filho em Brasília: a nova geometria do PSB
Foto: Metrópoles

O vice-presidente Geraldo Alckmin recebeu o deputado federal Requião Filho (PT-PR) em Brasília na última semana. Na mesa: o palanque paranaense de 2026 e a vaga de vice na chapa pedetista.

A reunião não foi casual. Representa um capítulo da reorganização partidária que varre o país desde a eleição de Lula — e que redesenha alianças estaduais à revelia das bases locais.

O xadrez paranaense e suas peças móveis

Requião Filho quer o governo do Paraná. Para isso, precisa do PSB. Alckmin controla a articulação nacional do partido desde que assumiu a vice-presidência — herança da fusão entre sua rede tucana e o projeto lulista.

O problema: o PSB paranaense já tem compromissos. Flerta com outros projetos. Dialoga com o governador Ratinho Junior (PSD), que busca reeleição ou sucessor controlado.

Oferecer a vice ao PSB é estratégia clássica. Antiga. Funciona quando há vácuo de liderança regional no partido cortejado. Requião Filho aposta nisso.

Precedente nacional: quando Brasília manda no estado

Este movimento não é isolado. Repete-se em São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia. Partidos nacionais negociam palanques estaduais como se fossem commodities políticas.

A reforma política brasil — tema recorrente no Congresso mas sempre inconcluso — deveria enfrentar exatamente isso: a distância entre cúpulas partidárias e territórios eleitorais.

Não enfrenta. As legendas funcionam como holdings. Controladas por poucos. Negociadas em gabinetes de Brasília. As bases estaduais descobrem as alianças pelos jornais.

Alckmin personifica esse modelo. Tucano histórico, hoje vice de Lula, articula pelo PSB. Sua trajetória resume a fluidez ideológica da política brasileira contemporânea.

Quem contra quem

No Paraná, o conflito é claro: Requião Filho (PDT) contra Ratinho Junior (PSD) pela hegemonia estadual. O PSB é o ativo disputado. Alckmin, o mediador nacional que pode inclinar a balança.

O sobrenome Requião carrega peso. Roberto Requião, pai do deputado, governou o estado três vezes. Construiu imagem de gestor técnico e opositor aguerrido. O filho tenta herdar o capital político sem herdar as rusgas.

Ratinho Junior, por outro lado, lidera as pesquisas. Governa com aprovação alta. Tem máquina. Tem aliados federais. Tem dinheiro.

Requião precisa de um milagre eleitoral. Ou de alianças improváveis. O PSB seria uma delas.

O que está em jogo além do Paraná

Esta negociação importa nacionalmente por três razões.

Primeira: testa a capacidade do governo Lula de construir palanques estaduais fortes. O PT apoia Requião Filho. O sucesso ou fracasso da articulação indica a força do governo fora do Planalto.

Segunda: mede a influência real de Alckmin. Ele virou vice para pacificar o centro. Para atrair empresários. Para governar. Se não consegue entregar um PSB estadual, sua função se resume a símbolo.

Terceira: expõe a fragilidade institucional dos partidos brasileiros. Legendas tratadas como marcas de aluguel. Trocadas conforme a conveniência eleitoral imediata.

Reforma política que nunca vem

Há décadas discute-se reforma política no Brasil. Financiamento de campanha. Cláusula de barreira. Fidelidade partidária. Federações.

Aprova-se muito. Muda-se pouco.

O sistema permanece permeável a negociações de cúpula. Impermeável a controle de filiados. Os partidos não são organizações de massa. São máquinas eleitorais controladas por oligarquias internas.

O PSB nacional negociar palanques estaduais sobre a cabeça de diretórios locais não é ilegal. É perfeitamente normal dentro da lógica atual. É, inclusive, esperado.

Mas corrói a representatividade. Transforma eleições em leilões de siglas. Esvazia o debate programático.

Requião Filho pode ganhar ou perder o apoio do PSB. Alckmin pode se mostrar forte ou fraco nessa negociação. Ratinho Junior pode se reeleger com folga ou enfrentar disputa apertada.

O que não muda é a estrutura: partidos negociados como ativos, militância como figurante, eleitores como público de um jogo cujas regras são escritas longe deles.

A reunião em Brasília entre vice-presidente e deputado paranaense é só mais um capítulo. A história é antiga. E continua.