Economia

Agro brasileiro busca marca forte enquanto Planalto negocia apoio

O agronegócio brasileiro movimenta R$ 2,5 trilhões por ano, mas suas marcas continuam invisíveis para o consumidor final. Enquanto a Marfrig e a JBS abastecem o mundo, quem compra carne no supermercado não sabe quem produziu. Esse vácuo de comunicação virou tema central no Fórum do Agronegócio, evento que expôs a fragilidade narrativa do setor justamente quando ele mais precisa de capital político.

A discussão sobre marketing e comunicação visual acontece em contexto delicado. O presidencialismo de coalizão brasileiro exige que setores econômicos fortaleçam sua imagem pública para negociar no Congresso. O agro, historicamente apoiado pela base ruralista, enfrenta agora um Executivo que oscila entre acenos e restrições ambientais.

O conflito da imagem

O setor exporta US$ 166 bilhões anuais, mas carrega a pecha de vilão ambiental. Marcas internacionais como a Patagonia fazem campanha contra produtos brasileiros. Na Europa, legislações ESG ameaçam barreiras comerciais. A resposta do agro nacional tem sido reativa e fragmentada.

O Fórum destacou que a comunicação do setor permanece presa ao jargão técnico. Produtores falam em "sanidade fitossanitária" quando deveriam falar em "alimento seguro". Cooperativas investem milhões em tecnologia, mas não traduzem isso em narrativa para o consumidor urbano que decide eleições.

Coalizão sob tensão

A fragilidade comunicacional do agro coincide com momento crítico no presidencialismo de coalizão. A bancada ruralista, com 293 deputados, sustenta pautas-chave no Congresso. Mas sem apoio popular urbano, perde força em embates com Executivo que precisa equilibrar agenda ambiental para atrair investimento estrangeiro.

Marina Silva, no Meio Ambiente, representa pressão oposta. O governo negocia votos com ruralistas em reformas fiscais, mas exige contrapartidas em licenciamento e uso de terras. Nesse cabo de guerra, quem controla a narrativa pública leva vantagem.

O Fórum do Agronegócio expôs essa urgência: valorizar marcas brasileiras não é mais questão apenas comercial. É estratégia de sobrevivência política. Sem reconhecimento público do valor do setor, a bancada ruralista se enfraquece nas negociações de coalizão.

O caso das cooperativas

Cooperativas como a Coamo e a Cocamar faturam bilhões mas permanecem desconhecidas fora do Paraná. O modelo cooperativista, vantajoso tributariamente, dificulta investimento em marca. Cada cooperado vende com seu próprio rótulo. O resultado é pulverização de identidade.

Especialistas no Fórum defenderam mudança estrutural: criar selos setoriais que unifiquem comunicação sem ferir autonomia comercial. O selo "Carne Carbono Neutro" da Embrapa é exemplo. Certificação técnica que vira ferramenta de marketing.

Precedente internacional

A Austrália enfrentou dilema semelhante nos anos 2000. Seu agro era competitivo mas invisível. Criou a campanha "Australian Made", que virou política de Estado com apoio bipartidário. O selo hoje agrega 15% de valor aos produtos certificados.

No Brasil, a tentativa mais próxima foi o "Agro é Pop", campanha da Rede Globo que humanizou o setor. Mas foi iniciativa de mídia, não do agronegócio. O setor ainda não assumiu protagonismo na própria narrativa.

Quem contra quem

De um lado, ruralistas precisam de apoio urbano para sustentar influência política no presidencialismo de coalizão. De outro, ONGs ambientais e governos europeus constroem narrativa anti-agro brasileiro. No meio, consumidor que desconhece origem do que consome.

O Fórum deixou claro: investir em comunicação deixou de ser luxo para virar necessidade estratégica. Em Brasília, quem não se comunica não negocia. E no presidencialismo brasileiro, quem não negocia não governa seu setor.

A bancada ruralista entende que precisa de novos aliados além dos tradicionais. Mas aliados urbanos exigem que o agro demonstre compromisso ambiental e social. Sem marcas fortes e comunicação clara, essa ponte não se constrói.

O debate sobre marketing no agronegócio é, portanto, debate sobre poder. Em sistema político que funciona por coalizões negociadas, ter narrativa pública forte define quanto cada setor consegue extrair do Executivo. O agro finalmente percebeu que está chegando atrasado nessa disputa.