Política

Afeganistão: 20 mortos e 100 desaparecidos expõem fragilidade talibã

Afeganistão: 20 mortos e 100 desaparecidos expõem fragilidade talibã
Foto: Metrópoles

Vinte corpos. Cem desaparecidos. As águas que invadiram o Afeganistão nesta semana carregam mais que lama e destroços — carregam a evidência brutal de um Estado falido.

As enchentes que devastaram províncias afegãs expõem a fratura central do regime talibã: três anos após retomar o poder, o grupo não construiu capacidade de resposta a emergências. Não há sistema de alerta. Não há estrutura de resgate. Não há nada.

O preço da governança improvisada

O Afeganistão enfrenta chuvas torrenciais em pleno inverno, fenômeno agravado pelas mudanças climáticas. Mas o desastre humanitário não é obra apenas da natureza. É produto de escolhas políticas.

Desde agosto de 2021, quando os Estados Unidos se retiraram e o Talibã reassumiu Cabul, o país mergulhou em isolamento internacional. Sanções econômicas. Congelamento de ativos. Corte de ajuda humanitária. O resultado: infraestrutura em colapso.

Canais de drenagem entupidos não foram limpos. Pontes danificadas não foram reparadas. Sistemas de alerta meteorológico, dependentes de tecnologia ocidental, deixaram de funcionar. A tragédia era anunciada.

Precedente histórico: quando a política afoga populações

A cena remete a 1998. Naquele ano, enchentes no Afeganistão mataram mais de 2 mil pessoas. O Talibã, em seu primeiro governo, também mostrou-se incapaz de responder. A diferença: havia menos mudança climática, mas havia mais guerra civil.

Agora, em 2025, a guerra diminuiu. A capacidade de governar, não aumentou. O regime controla território, mas não governa população. Impõe sharia, mas não oferece serviços básicos. A soberania é teatral.

"Um governo que não protege seu povo de enchentes previsíveis não governa — apenas ocupa", resume analista do International Crisis Group.

O dilema da comunidade internacional

A tragédia coloca o Ocidente diante de contradição. Isolar o Talibã significa punir civis afegãos. Ajudar civis significa legitimar o regime. Não há saída confortável.

Organizações humanitárias operam no limite. A ONU mantém presença mínima. ONGs enfrentam restrições crescentes, especialmente contra trabalhadoras mulheres — proibidas de atuar pelo Talibã. A ajuda chega em gotas, quando deveria chegar em torrentes.

O paradoxo é cruel: o Afeganistão precisa de bilhões para reconstruir infraestrutura climática. O Talibã não receberá nem milhões enquanto mantiver políticas de gênero medievais. No meio, afogam-se os afegãos comuns.

Lições para Estados frágeis

A catástrofe afegã oferece manual do que não fazer. Estados que priorizam ideologia sobre governança técnica colapsam diante de crises naturais. Regimes que isolam-se internacionalmente perdem acesso a recursos vitais. Governos que marginalizam metade da população — as mulheres — perdem metade da capacidade produtiva.

A crise democrática que assola diversos países, incluindo debates no Brasil sobre qualidade institucional, encontra no Afeganistão seu laboratório extremo. Quando instituições desmoronam, quando expertise é desprezada, quando ideologia substitui pragmatismo, populações pagam com vidas.

As enchentes afegãs não são apenas tragédia humanitária. São diagnóstico político. Revelam que controle territorial não equivale a capacidade estatal. Que soberania sem governança é casca vazia.

O que vem pela frente

Os 100 desaparecidos provavelmente já são mortos. O número oficial subirá. Epidemias de cólera e tifo seguirão as águas contaminadas. Fome virá depois, quando plantações destruídas não produzirem colheita.

O Talibã pedirá ajuda internacional. A ajuda virá com condições. As condições serão rejeitadas. O ciclo de sofrimento continuará.

Enquanto isso, em algum vale afegão, outra família procura corpos na lama. O Estado que deveria protegê-los está ocupado impondo códigos de vestimenta. A tragédia não é apenas natural. É profundamente política.