Política

15 milhões de brasileiros nas bets: análise política do vício

15 milhões de brasileiros nas bets: análise política do vício
Foto: Metrópoles

15,2 milhões de brasileiros apostaram dinheiro em plataformas digitais no primeiro trimestre de 2026. O número vem do Ministério da Fazenda. Representa um em cada 14 habitantes do país.

Mais impressionante: essas pessoas mantinham 97,9 milhões de contas ativas em operadoras reguladas até março. Seis contas por apostador, em média.

O Estado como sócio da aposta

A regulamentação das bets completou dois anos em 2026. O governo Lula apostou na arrecadação tributária. Perdeu o controle da dimensão social do problema.

A conta é simples. O Ministério da Fazenda licenciou plataformas, cobrou impostos, legitimou o setor. Em troca, recebeu uma crise de saúde pública silenciosa.

Não há precedente histórico no Brasil. Nunca antes o Estado regulou atividade com tamanho potencial viciante para escala tão massiva de cidadãos. Loterias físicas jamais alcançaram penetração comparável.

O Ministério da Saúde não acompanhou os dados da Fazenda. Não há sistema para monitorar dependência em apostas. Não há campanha preventiva com alcance proporcional à publicidade das bets.

Quem aposta e quem lucra

O perfil do apostador brasileiro permanece nebuloso. O governo não divulgou recorte por renda, região ou faixa etária.

Estudos independentes apontam concentração em classes C e D. Exatamente as camadas mais vulneráveis a endividamento. As mesmas que o governo diz proteger com política social.

As operadoras, por outro lado, estão mapeadas. Empresas estrangeiras dominam o mercado regulado. Sede em Malta, Gibraltar, Curaçao. Lucros remetidos ao exterior.

O modelo repete erros históricos da política econômica brasileira. Abertura de mercado sem contrapartida social. Arrecadação tributária imediata em troca de passivo de longo prazo.

O paradoxo da regulação

Regulamentar era necessário. O mercado ilegal movimentava bilhões sem fiscalização. Lavagem de dinheiro, fraude, manipulação de resultados esportivos.

Mas a regulação virou incentivo. O Estado conferiu legitimidade. Apostadores interpretaram licença oficial como aval à segurança. Bancos liberaram crédito. Influenciadores ganharam licença para propaganda.

O Banco Central registrou aumento de 340% nas transações para plataformas de aposta entre 2024 e 2026. Boa parte via Pix. Facilidade operacional sem paralelo em cassinos físicos.

A velocidade da transação amplia o risco de compulsão. Estudos em psicologia comportamental comprovam: quanto menor o intervalo entre aposta e resultado, maior o potencial viciante.

Precedentes internacionais ignorados

Reino Unido regulou apostas online em 2005. Vinte anos depois, enfrenta epidemia de ludopatia. O governo britânico estuda reverter liberalizações.

Austrália tem a maior taxa per capita de apostadores do mundo. Instalou sistemas de autoexclusão obrigatória, limites de depósito, proibição de crédito para apostas. Mesmo assim, não conteve o crescimento do problema.

Suécia implementou em 2019 modelo considerado referência. Operadoras devem reportar comportamento de risco. Usuários recebem alertas automáticos. Ainda assim, associações de saúde mental relatam aumento de casos.

O Brasil ignorou todas essas lições. Aprovou marco regulatório sem requisitos equivalentes. A Fazenda priorizou arrecadação. A Saúde ficou de fora da discussão.

O custo político invisível

Os 15,2 milhões de apostadores não formam grupo de pressão organizado. Não há movimento social contra bets. O tema não mobiliza bases eleitorais.

Isso adia a conta política. Mas não a elimina.

Endividamento doméstico crescente vai aparecer em indicadores macroeconômicos. Inadimplência bancária já sobe. Consumo de outros setores começa a cair.

Quando a classe média sentir o aperto, o debate chegará ao Congresso. Tarde demais para prevenção. A tempo apenas para remediar danos.

A decisão de regular bets sem estrutura de proteção social foi escolha consciente. O governo federal tinha informação. Outros países já haviam testado o modelo. Os resultados estavam documentados.

Escolheu-se priorizar receita tributária imediata. O passivo será cobrado da próxima gestão. Ou da seguinte.

É análise política elementar: custos sociais de longo prazo não pesam em cálculo eleitoral de curto prazo.

Os 15,2 milhões de brasileiros nas bets são sintoma, não causa. Revelam Estado que regulamenta sem proteger, arrecada sem cuidar, governa sem planejar consequências.