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Vitória Strada e a praia carioca: lazer como política pública

Vitória Strada e a praia carioca: lazer como política pública
Foto: revistaquem.globo.com

A praia carioca voltou ao centro do debate público neste domingo (2). Não pela temperatura de 32,5°C. Nem pela temporada de verão. Mas por representar o que cientistas políticos chamam de "espaço democrático por excelência" — onde classe média e elite compartilham areia, ambulantes e partidas de Uno.

Vitória Strada, atriz recém-chegada de São Paulo após desfile de moda, publicou registros de seu dia na praia do Rio. Mate gelado. Jogo de cartas. Bronze renovado. "De volta no Rio", escreveu.

O trivial esconde o essencial.

Presidencialismo de coalizão nas praias

A orla carioca funciona como laboratório vivo do que Sérgio Abranches definiu como presidencialismo de coalizão. Ali, interesses conflitantes negociam espaço diariamente. Ambulantes versus fiscalização. Banhistas versus vendedores. Privado versus público.

O mate que Vitória Strada tomou representa uma cadeia econômica informal que emprega milhares. Tolerada. Regulada à margem. Produto de décadas de pactos não escritos entre poder público e trabalhadores de praia.

É coalizão sem partido. Presidencialismo sem presidente.

Histórico do conflito urbano

Desde a redemocratização, praias cariocas são palco de disputas políticas silenciosas. A Lei 2.618/97 tentou regulamentar o comércio ambulante. Fracassou na prática.

Governos sucessivos prometeram ordem. Entregaram acordos tácitos.

O resultado? Um sistema que funciona apesar do Estado. Ou por causa de sua ausência controlada.

Vitória Strada não está apenas tomando mate. Ela participa, inconscientemente, de um arranjo institucional complexo. Compra de ambulante que paga propina irregular. Que disputa território com rival. Que negocia com guarda municipal. Que vota baseado em quem promete "deixar trabalhar".

Análise de precedentes

O caso remete ao que aconteceu em Barcelona pós-Olimpíada. Praias gentrificadas. Ambulantes expulsos. Turismo cresceu. Identidade local morreu.

Rio evitou esse caminho. Por incapacidade ou sabedoria, manteve o caos organizado.

Outras capitais tentaram copiar. Recife regulamentou demais. Salvador fiscalizou em excesso. Nenhuma replicou o equilíbrio carioca — frágil, mas funcional.

Significado político profundo

Para quem isso importa? Para gestores urbanos que estudam o impossível: como governar o ingovernável.

A praia carioca prova que presidencialismo de coalizão vai além de Brasília. Está no mate gelado. No Uno nas areias. Na atriz que renova bronze enquanto participa de experimento social secular.

O retorno de Vitória Strada ao Rio não é entretenimento puro. É lembrete de que política acontece onde menos esperamos. Em cada transação informal. Em cada espaço público negociado.

E que algumas coalizões prescindem de parlamento. Bastam areia, mate e tolerância mútua.