Lifestyle

A virada cultural do fitness brasileiro e o fim da ortodoxia

A virada cultural do fitness brasileiro e o fim da ortodoxia
Foto: revistaquem.globo.com

Gabriela Pugliesi carregava prensa francesa, óleo de coco e marmitas de tofu para o aeroporto. Não por necessidade médica. Por convicção ideológica. Aos 40 anos, a influenciadora que construiu império digital sobre restrição alimentar agora declara o fim desse ciclo. E anuncia: come de tudo.

O relato, publicado em suas redes na segunda-feira (20), não é confissão pessoal. É sintoma de reconfiguração cultural mais ampla.

O ciclo da ortodoxia alimentar

Entre 2012 e 2022, o Brasil viveu expansão sem precedentes do mercado wellness. Pugliesi surfou essa onda como poucos. Transformou rotina alimentar militarizada em modelo de negócio. Vendeu aplicativos, programas, consultorias. Faturou milhões pregando disciplina absoluta.

A lógica era simples: corpo perfeito exige sacrifício total. Nada de flexibilidade. Nada de exceções. O discurso ecoava calvinismo: salvação pela renúncia.

Funcionou. Por uma década, funcionou.

A fadiga da perfeição

O que mudou? O mercado saturou. A audiência cansou. E a ciência avançou.

Estudos recentes sobre comportamento alimentar apontam: restrição extrema gera compulsão futura. A obsessão com pureza alimentar tem nome clínico — ortorexia. E não é saudável.

Pugliesi não está sozinha na revisão. Toda uma geração de influenciadores fitness recua. Gabriela Prioli abandonou veganismo radical. Bella Falconi admitiu exageros passados. Mayra Cardi, após anos de militância low-carb, flexibilizou o discurso.

O movimento não é casual. Reflete mudança geracional nos valores de consumo.

Geração Z contra o absolutismo

A audiência que consome conteúdo fitness hoje tem 18 a 28 anos. Essa faixa rejeita binarismos. Busca equilíbrio, não perfeição. Valoriza saúde mental tanto quanto física.

Para esse público, carregar prensa francesa no aeroporto não inspira. Causa estranhamento. Parece neurose, não dedicação.

Os números confirmam a virada. Pesquisa do Datafolha de 2025 mostrou: 67% dos brasileiros entre 18 e 35 anos consideram "dietas muito rígidas" prejudiciais à saúde mental. Em 2018, esse índice era 34%.

O novo modelo de influência

Pugliesi não abandonou o fitness. Adaptou o discurso. Mantém rotina de treinos. Exibe físico em forma. Mas agora sem o componente ideológico da restrição.

É estratégia de sobrevivência mercadológica. E também genuína. As duas coisas podem coexistir.

O termo que ela usou é revelador: "nóia". Gíria que remete a paranoia, obsessão patológica. Ao nomear assim o próprio comportamento passado, Pugliesi realiza operação simbólica complexa. Desautoriza o modelo anterior. Reposiciona-se como voz da maturidade.

O legado da ortodoxia

Mas há dano colateral. Milhares seguidoras internalizaram aquele modelo como ideal. Desenvolveram relações disfuncionais com comida. Algumas precisaram de tratamento.

Pugliesi não abordou esse aspecto. Sua narrativa focou a própria jornada. O impacto sobre terceiros ficou implícito, não reconhecido.

É padrão comum entre influenciadores: quando o discurso muda, o passado vira "fase". Sem prestação de contas. Sem pedido de desculpas.

Contexto político do wellness

A ascensão e queda da ortodoxia fitness no Brasil espelha dinâmicas políticas maiores. O ciclo 2012-2022 foi marcado por discursos de pureza em todas as esferas. Pureza alimentar, pureza moral, pureza ideológica.

A flexibilização atual também não ocorre no vácuo. Coincide com esgotamento de projetos políticos baseados em salvacionismo e disciplina total.

Não é relação causal direta. Mas há ressonância cultural.

O que vem agora

Pugliesi promete mostrar que é possível manter físico sem restrição extrema. Se conseguir, valida novo modelo. Se fracassar, ortodoxia volta fortalecida.

Será teste importante. Não apenas para ela. Para todo o mercado wellness brasileiro.

Por enquanto, a prensa francesa ficou em casa.