Mundo

Trumpistas testam democracia com chantagem orçamentária nos EUA

Washington enfrenta mais um impasse que expõe as fraturas da democracia americana. Senadores ultraconservadores aliados de Donald Trump querem condicionar a aprovação do orçamento federal à aprovação do SAVE America Act — legislação que endurece requisitos para votação sob pretexto de combater fraude eleitoral.

A estratégia é simples: ou aprova-se a lei de Trump, ou o governo federal fecha as portas após 30 de setembro.

O problema? Nem os republicanos estão unidos. Parte considerável do GOP teme o custo político de um shutdown — paralisia administrativa que historicamente prejudica quem a provoca nas urnas.

Chantagem institucional como método

O Safeguard American Voter Eligibility Act exige documentação mais rigorosa para cadastro eleitoral. Defensores argumentam que evita fraude de não-cidadãos votando. Críticos apontam que é solução para problema inexistente — casos de voto irregular por estrangeiros são estatisticamente irrelevantes nos EUA.

Mas a substância da lei importa menos que sua função política: é a prioridade número um de Trump. E seus aliados no Senado aprenderam que lealdade ao ex-presidente vale mais que consenso institucional.

A tática de vincular pautas ideológicas a votações orçamentárias obrigatórias tornou-se rotina tóxica. Transforma governabilidade em refém de agendas partidárias. O que deveria ser procedimento técnico vira guerra de trincheiras.

Ecos de uma crise maior

O embate não é isolado. Reflete padrão global de erosão democrática: usar instrumentos legais para travar instituições quando não se consegue maioria política natural.

No Brasil, vimos dinâmica semelhante em crises orçamentárias recentes. Governos e oposições utilizando aprovação de contas públicas como moeda de barganha para pautas alheias ao mérito fiscal. A crise da democracia brasileira tem, entre seus sintomas, justamente essa instrumentalização do Estado.

Nos EUA, o fenômeno ganhou escala industrial após 2010. Shutdowns deixaram de ser exceção constrangedora e viraram ferramenta corriqueira. O país já enfrentou 14 paralisações federais desde 1981 — dez delas após 1990.

Quem contra quem

De um lado: senadores trumpistas dispostos a quebrar vidraças institucionais para agradar a base eleitoral e ao líder do movimento MAGA.

Do outro: republicanos tradicionais preocupados com governabilidade e reputação — especialmente os de estados competitivos onde shutdown pode custar votos em 2024.

Democratas assistem de camarote. Sabem que divisão republicana os favorece. Também calculam que cidadão médio culpará o GOP se serviços federais pararem.

O custo da polarização

Paralisia governamental cobra preço real. Funcionários públicos ficam sem salário. Serviços essenciais operam no mínimo. Contratos com fornecedores travam. Parques nacionais fecham.

Mas o custo político pode ser ainda maior. Cada crise orçamentária por motivo ideológico corrói mais um pedaço da confiança nas instituições. Cidadãos percebem que o sistema não funciona — e radicais de ambos os lados aproveitam essa percepção.

É ciclo vicioso: polarização gera disfunção institucional, que alimenta mais polarização.

Precedentes perigosos

Aceitar chantagem orçamentária como tática legítima estabelece precedente corrosivo. Se funcionar agora, será repetido. E aprofundado.

Democracias liberais dependem de normas não-escritas tanto quanto de leis formais. Uma delas é que orçamento não deve ser refém ideológico. Quando essa norma cai, abre-se caminho para degeneração institucional acelerada.

O Brasil conhece bem esse roteiro. Começou com pedaladas fiscais, passou por orçamentos secretos, chegou em tentativa de não reconhecer eleições. Cada etapa normalizou a seguinte.

Nos EUA, Trump já tentou não aceitar resultado eleitoral em 2020. Agora seus aliados testam até onde podem ir em obstruir funcionamento básico do Estado. Se conseguirem, testarão mais.

A questão não é se o SAVE Act é boa ou má política eleitoral. É se democracias sobrevivem quando facções preferem quebrar o Estado a negociar dentro dele.

Washington terá resposta até fim de setembro. E o mundo observa se a maior democracia ocidental ainda consegue se governar — ou se já perdeu essa capacidade.