Tio da Sukita: ícone da TV que ganhou quase nada pelo hit
Roberto Arduin entrou num elevador em 1999 e saiu milionário em reconhecimento. Em dinheiro, quase nada.
O ator virou o "Tio da Sukita" num comercial que ninguém esperava que funcionasse. Era um tapa-buraco. Guaraná Antarctica havia caído fora — problema contratual com a Ambev. A produtora Tina ligou desesperada. Arduin topou de última hora.
"Foi gozado porque não era para ser nada", relembra o ator em entrevista recente. "Eu já ia para a Argentina fazer Chiquititas. A Tina me ligou: 'Arduin, pelo amor de Deus, você pode me ajudar?' Vamos por Sukita, só para tapar um buraco."
A cena que virou cultura pop
O roteiro era simples. Um cinquentão tenta flertar com uma jovem no elevador. Ela corta seco: "Tio, aperta o 20 para mim?"
A frase entrou no vocabulário nacional. Virou bordão. Arduin ganhou um apelido eterno.
O cachê? Ridículo.
"Ganhei mal", admite o ator, sem revelar valores exatos. Na época, trabalhos emergenciais em publicidade pagavam menos que campanhas planejadas. Arduin não tinha contrato de exclusividade. Não recebeu royalties pela reprise.
Economia da fama sem contrato
O caso expõe uma distorção do mercado publicitário brasileiro nos anos 90. Atores conhecidos topavam cachês baixos para "ajudar" produtoras amigas. A moeda de troca era visibilidade.
Funcionava — até certo ponto.
Arduin ficou famoso. Mas a Sukita, a agência e a TV lucraram infinitamente mais. O comercial rodou em horário nobre por meses. Gerações inteiras conhecem a cena. O ator não viu proporcionalidade financeira.
Diferente dos Estados Unidos, onde sindicatos de atores garantem pagamentos recorrentes por uso de imagem, o Brasil operava — e ainda opera em muitos casos — com contratos de cessão total de direitos.
O contexto de 1999
O ano marcava a consolidação dos refrigerantes regionais contra gigantes globais. Sukita, marca nordestina, tentava nacionalizar presença. Precisava de memorabilidade rápida.
Conseguiu.
A estratégia era arriscada: humor autodepreciativo, personagem masculino patético, mulher em posição de poder na piada. Funcionou porque o público já começava a rejeitar propagandas machistas tradicionais.
Arduin entregou o tom certo. Constrangimento sem ser ofensivo. Ridículo sem ser grotesco.
Profissionais da época estimam que o comercial gerou reconhecimento de marca equivalente a campanhas dez vezes mais caras. O ator recebeu fração mínima desse valor.
Lição para criadores de conteúdo
A história do Tio da Sukita repete-se hoje com influenciadores digitais. Aceitam trabalhos por "exposição". Criam conteúdo viral. Marcas faturam milhões. Criadores recebem migalhas.
A diferença: redes sociais permitem renegociação contínua. Arduin ficou preso ao contrato de 1999.
Ele não reclama publicamente. Reconhece que a carreira se beneficiou. Mas admite: "Ganhei mal."
É frase curta. Honesta. Resume décadas de economia criativa brasileira onde talento se paga com tapinha nas costas.
O elevador subiu. O Tio da Sukita ficou no térreo financeiro.