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STF x Congresso: análise da disputa por soft power cultural

STF x Congresso: análise da disputa por soft power cultural
Foto: revistaquem.globo.com

Uma criança de dois anos pulando ao ver o BTS na final da Copa do Mundo não é apenas entretenimento infantil. É sintoma de uma reconfiguração geopolítica que escapa ao radar das instituições brasileiras enquanto STF e Congresso brigam por competências jurídicas obsoletas.

Helena, filha do jogador Neymar, reagiu instintivamente ao que analistas de relações internacionais chamam de "diplomacia do K-pop". O grupo sul-coreano apresentou-se no intervalo da partida disputada em Nova York no último domingo. Foi o primeiro show da história das finais de Copa.

O soft power que nossas instituições ignoram

Enquanto o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional travam batalhas sobre o alcance de liminares e a constitucionalidade de emendas, a Coreia do Sul exporta influência cultural que atinge crianças brasileiras antes que saibam ler.

A mãe de Helena, Amanda Kimberlly, registrou nos Stories do Instagram: "Ela deu um pulo quando viu eles". A menina dançou Dynamite, hit do BTS. Não foi ensinada formalmente. Absorveu por osmose digital.

Este é o tipo de poder que não consta nos tratados constitucionais que alimentam as disputas entre Brasília e o Judiciário.

A arquitetura do conflito institucional brasileiro

A tensão STF x Congresso concentra-se em questões do século XX: quem julga o quê, quem legisla sobre qual matéria, onde termina um poder e começa outro.

São debates necessários. Mas insuficientes.

Nenhuma das instituições em conflito construiu capacidade de compreender — quanto mais influenciar — os vetores culturais que moldam as próximas gerações. O BTS na Copa não foi decisão da FIFA por acaso. Foi estratégia sul-coreana de décadas.

O Brasil, enquanto isso, debate se ministro pode ou não suspender rede social.

Precedente histórico: quando a cultura antecede a política

Há paralelos instrutivos. Os Estados Unidos não venceram a Guerra Fria apenas com mísseis. Hollywood, jazz, blue jeans e Coca-Cola prepararam o terreno.

A França não mantém influência global por seu PIB. Mantém pelo soft power da língua, da gastronomia, do cinema.

A Coreia do Sul aprendeu a lição. Investiu sistematicamente em indústria cultural após a crise asiática de 1997. Hoje, crianças brasileiras pulam ao ver BTS sem que nenhum acordo bilateral tenha sido assinado.

O que significa para as instituições brasileiras

A disputa STF x Congresso ocorre em um plano cada vez mais irrelevante para a formação de valores e preferências da população.

Não é que processos legislativos e controle de constitucionalidade sejam desnecessários. É que operam em velocidade e linguagem desconectadas da realidade que pretendem regular.

Uma criança de dois anos já tem preferências culturais definidas por algoritmos e estratégias de Estados estrangeiros. Nenhuma comissão do Congresso discute isso. Nenhum ministro do STF julga essa arquitetura de influência.

Para quem isso importa

Importa para quem entende que poder institucional sem capacidade de moldar narrativas culturais é poder residual.

Importa para analistas que percebem: a próxima geração de eleitores está sendo formada por vetores que nossas instituições nem mapearam ainda.

Importa para quem reconhece que a disputa STF x Congresso, tal como configurada, é uma briga de bastidores enquanto o palco principal foi ocupado por outros atores.

Amanda Kimberlly tem 387 mil seguidores no Instagram. O vídeo de Helena alcançou dezenas de milhares de visualizações em horas. Nenhum pronunciamento institucional brasileiro tem esse alcance ou essa capacidade de gerar identificação emocional.

A lacuna estratégica brasileira

O Brasil não tem estratégia de soft power comparável. Exporta soja, minério, celulose. Não exporta sonhos, aspirações, modelos de vida.

Nossas instituições brigam por parcelas de poder doméstico enquanto outros países conquistam mentes brasileiras sem disparar um tiro ou assinar um tratado.

É o tipo de assimetria que determina hierarquias globais no século XXI.

Helena dançando BTS é sintoma dessa reconfiguração. Suas instituições discutindo limites de liminares é sintoma de não terem percebido que o jogo mudou de tabuleiro.