Regina Casé leva teatro político às ruas: inclusão é pauta
Regina Casé, 72 anos, e sua filha Benedita, 37, subiram ao palco do Conversa com Bial nesta terça-feira (21) para falar de um tema que atravessa eleições, governos e o sistema partidário brasileiro há décadas: a inclusão de pessoas com deficiência.
Mãe e filha estão em cartaz no Rio de Janeiro com peças que tocam em feridas abertas da sociedade brasileira. Benedita protagoniza "Surda", espetáculo sobre a comunidade surda. Regina estrela "Viva a Vida", sobre crise climática.
O encontro não foi casual. Foi político.
O palco como tribuna
"Surda" foi escrita por Julia Spadaccini, dramaturga que perdeu a audição entre a adolescência e o início da vida adulta. A peça propõe uma imersão no universo das pessoas surdas, expondo barreiras invisíveis aos ouvintes.
O texto funciona como manifesto. E manifestos sempre foram ferramentas políticas.
Regina Casé, figura conhecida por transitar entre entretenimento e militância desde os anos 1990, escolheu a pauta climática. "Viva a Vida" chega num momento em que o debate ambiental divide partidos e eleitores no Brasil.
A polarização sobre meio ambiente virou linha divisória entre esquerda e direita no sistema partidário brasileiro. Regina planta sua bandeira.
Capacitismo: a pauta que ninguém quer discutir
Capacitismo é discriminação contra pessoas com deficiência. O termo entrou no vocabulário político brasileiro recentemente, mas o problema é antigo.
Segundo dados do IBGE, 18,6 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência. Isso representa cerca de 8,9% da população. Mas quantos deputados federais são pessoas com deficiência? Quantos senadores? Quantos prefeitos?
A representação política desse grupo é quase inexistente.
Partidos de todo o espectro ideológico evitam o assunto. É uma pauta cara, complexa e que não rende votos imediatos.
Regina e Benedita colocam o tema na mesa da TV aberta. Num programa de horário nobre. Com plateia presente.
O histórico de Regina Casé
Regina Casé não é novata em usar sua visibilidade para pautas progressistas. Desde o "Brasil Legal" nos anos 1990, ela trouxe periferias, favelas e minorias para a televisão.
Em 2022, ela gravou vídeos de campanha para Lula. Participou de atos políticos. Assumiu lado.
Agora, aos 72 anos, ela escolhe falar de clima e assistir a filha falar de inclusão. É continuidade de um projeto político pessoal.
Sistema partidário e a questão da inclusão
O sistema partidário brasileiro falha em representar pessoas com deficiência. Não há dados consolidados sobre candidatos PCDs em eleições proporcionais. Partidos não priorizam essas candidaturas.
A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, avançou em direitos. Mas a implementação depende de vontade política. E vontade política depende de pressão.
O teatro, a TV e a cultura popular historicamente pressionaram o debate político brasileiro. Foi assim com raça, gênero e sexualidade. Agora é a vez da deficiência.
O encontro no Copacabana Palace
O programa foi gravado no teatro do Copacabana Palace, hotel-símbolo da elite carioca. A escolha do local não passou despercebida.
Falar de inclusão num espaço de exclusividade é ironia deliberada. Ou estratégia de comunicação.
Pedro Bial, apresentador com histórico de entrevistas políticas, conduziu a conversa. O formato com plateia adiciona pressão. Respostas precisam funcionar ao vivo.
O que vem depois
"Surda" e "Viva a Vida" são peças em temporada. Vão passar. Mas a conversa que Regina e Benedita iniciaram pode ter vida longa.
Eleições municipais se aproximam. Candidatos precisarão responder sobre acessibilidade, inclusão e políticas públicas para PCDs.
Regina Casé jogou o assunto na mesa. Agora é ver quem pega.