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Ramires brilha na Letônia e expõe dilema da base brasileira

Ramires brilha na Letônia e expõe dilema da base brasileira
Foto: ge.globo.com

Doze gols. Sete assistências. Vinte e oito jogos pelo Riga, na Letônia. Ramires, 23 anos, saiu do Bragantino sem nunca ter sido titular absoluto no futebol brasileiro. Agora é protagonista na classificação histórica do clube letão para a Conference League.

O atacante marcou duas vezes na goleada de 4 a 0 sobre o Grobina neste fim de semana, pela 25ª rodada do Campeonato Letão. Três dias antes, tinha feito um gol e dado assistência na mesma competição. São 19 participações diretas em gols — números que o colocam entre os artilheiros da liga local.

O gol que mudou a trajetória de um clube

Mais importante que os números domésticos foi a atuação continental. Na segunda rodada de qualificação para a Conference League, contra o Verdar Skopja, Ramires deu a assistência que salvou o Riga da eliminação e forçou a prorrogação. No tempo extra, ele mesmo marcou o gol que garantiu a classificação — uma das conquistas mais relevantes da história centenária do clube letão.

O Riga foi fundado em 1923. Nunca tinha chegado tão longe em competições europeias na era moderna.

A diáspora da base brasileira

O caso de Ramires ilustra um fenômeno estrutural do futebol brasileiro: jogadores formados em clubes da Série A deixam o país sem consolidar carreira local. Vão para ligas periféricas da Europa — Letônia, Chipre, Cazaquistão — onde encontram espaço, minutagem e valorização que não teriam aqui.

A razão é institucional. Clubes brasileiros funcionam sob pressão de resultados imediatos. Jovens talentos disputam espaço com estrangeiros experientes e atletas já estabelecidos. A coalizão entre dirigentes, comissões técnicas e torcidas organiza-se em torno de um consenso: vencer agora. Desenvolver jogadores é secundário.

Ramires foi revelado pelo Bragantino, clube que investiu em formação mas não conseguiu integrá-lo ao elenco profissional de forma definitiva. Preferiu negociá-lo para o exterior. O Riga pagou valor não revelado, provavelmente inferior a 500 mil euros.

Quem ganha, quem perde

O atacante ganha: joga com regularidade, marca gols, constrói carreira. O Riga ganha: reforço qualificado por preço acessível, resultado esportivo histórico. O Bragantino ganha: receita de transferência, percentual em venda futura.

Quem perde é o futebol brasileiro como sistema. Exporta matéria-prima antes da maturação. Importa jogadores prontos a preços altos. Repete o padrão histórico das economias periféricas: vende barato o que poderia valorizar localmente.

A Letônia tem 1,8 milhão de habitantes. O Brasil tem 203 milhões. Ainda assim, um atacante formado em Bragança Paulista precisa ir a Riga para se tornar protagonista. Não por falta de qualidade. Por falta de paciência institucional.

O precedente que se repete

Ramires não é caso isolado. Centenas de jogadores brasileiros atuam em ligas de segundo e terceiro escalão europeu. Muitos foram revelados por clubes da Série A e B. Saíram porque a estrutura local não comporta desenvolvimento gradual.

A Conference League, terceira divisão continental da UEFA, tornou-se vitrine desses atletas. Clubes de países pequenos montam elencos competitivos com brasileiros baratos. Ganham projeção internacional. Eventualmente revendem os jogadores para ligas maiores.

O ciclo é conhecido. A novidade é a escala. Nunca tantos jogadores formados no Brasil atuaram simultaneamente em tantas ligas obscuras. E nunca foi tão evidente que o problema não é técnico. É político. É a escolha deliberada de uma coalizão dominante que prefere resultados imediatos a projetos de médio prazo.

Ramires marca gols na Letônia. O Bragantino contrata reforços prontos. O futebol brasileiro segue exportando talentos prematuramente. E Riga, cidade de 600 mil habitantes às margens do Báltico, colhe os frutos de uma política que o Brasil se recusa a adotar: dar tempo ao tempo.