Projeto de santuário marinho expõe racha na coalizão presidencial
A retomada do projeto "Deixa as Baleias Namorarem", que busca transformar o Oceano Atlântico em santuário marinho, reacende uma disputa silenciosa dentro da coalizão presidencial. De um lado, a ala ambientalista do governo. Do outro, parlamentares ligados ao agronegócio e à pesca industrial que temem precedentes regulatórios.
A atriz Erika Januza participou neste domingo (2) de um passeio de veleiro no Rio de Janeiro para acompanhar o projeto, originalmente lançado em 2008 e agora ressuscitado em plena temporada de reprodução das baleias-jubarte nas águas brasileiras.
O contexto político da proteção ambiental
Iniciativas de conservação marinha enfrentam historicamente resistência no Congresso Nacional. O projeto de santuário no Atlântico Sul — que incluiria toda a costa brasileira — esbarra em interesses consolidados de setores produtivos com forte representação na base governista.
A proposta original de 2008 nunca avançou além de discussões técnicas no Ministério do Meio Ambiente. Ficou engavetada durante governos de diferentes matizes ideológicas. A razão é sempre a mesma: medo de criar jurisprudência para outras áreas de proteção integral.
Frente Parlamentar da Agropecuária versus Meio Ambiente
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reúne 334 deputados e senadores. Muitos integram partidos da coalizão presidencial atual. Esses parlamentares veem com desconfiança qualquer expansão de áreas protegidas, mesmo no oceano.
O argumento é econômico. Temem que santuários marinhos sirvam de modelo para restrições em terra. A pesca industrial, embora represente fração menor do PIB, conta com lobby organizado e capilarizado em estados costeiros estratégicos eleitoralmente.
"Estou num veleiro para fazer visitação às baleias que estão por aqui, agora, nas nossas águas, em fase de reprodução", relatou Januza em suas redes sociais.
O precedente internacional que assusta
Em 1994, a Comissão Baleeira Internacional criou o Santuário do Oceano Austral. O Brasil votou a favor. Desde então, países como Japão e Noruega pressionam contra expansões similares. Argumentam que santuários marinhos limitam soberania nacional sobre recursos naturais.
Dentro da coalizão presidencial brasileira, essa narrativa encontra eco. Parlamentares nacionalistas, mesmo de centro-esquerda, resistem a compromissos internacionais vistos como limitadores da exploração econômica futura.
Baleias como termômetro político
A temporada reprodutiva das baleias-jubarte ocorre entre julho e novembro. Milhares de animais migram da Antártida para águas tropicais brasileiras. O turismo de observação movimenta economias locais no litoral da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Esse dado econômico favorável ao projeto enfrenta contraponto: a indústria offshore de petróleo. A Petrobras e operadoras privadas investem bilhões em exploração no pré-sal da Bacia de Santos e Campos. Santuários marinhos poderiam complicar licenciamentos futuros.
A ministra do Meio Ambiente evita comentar publicamente projetos que possam gerar atrito com o Ministério de Minas e Energia. Ambos os titulares integram o núcleo duro da coalizão. Qualquer proposta ambiental robusta precisa dessa acomodação interna.
Solteira e engajada
Erika Januza está solteira desde o término polêmico com Arlindinho. A atriz da novela "A Nobreza do Amor", exibida no horário das seis na TV Globo, tem usado suas redes sociais para promover causas ambientais.
Celebridades ambientalistas costumam enfrentar críticas de setores produtivistas. São acusadas de romantizar questões econômicas complexas. Januza ainda não sofreu ataques coordenados, mas o padrão histórico sugere que engajamento público em temas sensíveis atrai reação política organizada.
O projeto "Deixa as Baleias Namorarem" depende agora de decisão que transcende aspectos técnicos de biologia marinha. Tornou-se teste para medir quanto espaço a agenda ambiental realmente ocupa na coalizão presidencial. E quanto custa politicamente defender o Atlântico.