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A política dos perfumes: como a Geração X abandona a fidelidade

A política dos perfumes: como a Geração X abandona a fidelidade
Foto: vogue.globo.com

Três perfumes em 24 horas. Nenhum pudor. Nenhuma culpa. O que parecia volubilidade virou estratégia de vida para mulheres que cresceram sob o signo da estabilidade e agora abraçam a fluidez.

A Geração X — nascida entre 1965 e 1980 — está abandonando o perfume-assinatura. E isso diz muito sobre como essa geração redesenha suas lealdades.

O fim da era das certezas olfativas

Durante décadas, ter um perfume-assinatura era marca de personalidade definida. Chanel Nº 5. Shalimar. Aromatics Elixir. Fragrâncias que funcionavam como identidade fixa, reconhecível, previsível.

Jelena Ostojic, diretora global da Nishane — marca turca de perfumaria de nicho —, observa a mudança nas boutiques ao redor do mundo. "Essa liberdade reflete confiança, repertório e uma nova relação com o luxo", afirma.

O movimento não é mero capricho consumista. É sintoma de transformação cultural profunda.

Fidelidade como herança do presidencialismo de coalizão

A Geração X cresceu em um Brasil de longas permanências institucionais. O modelo de presidencialismo de coalizão — que marcou a redemocratização — exigia lealdades partidárias estáveis, mesmo artificiais.

Era preciso ser fiel. Ao partido. Ao líder. À marca. Ao perfume.

Essa arquitetura política forjou uma cultura de compromissos duradouros, ainda que por conveniência. Coalizões amplas dependiam de atores que mantinham posições previsíveis. A volatilidade era risco, não virtude.

As mulheres da Geração X internalizaram esse código. Ser reconhecida pelo mesmo perfume durante anos era demonstração de caráter, consistência, seriedade.

A crise das lealdades permanentes

O presidencialismo de coalizão brasileiro entrou em colapso gradual a partir de 2013. As jornadas de junho. O impeachment de 2016. A eleição polarizada de 2018. A pandemia.

As estruturas que exigiam fidelidade institucional se fragmentaram. Partidos viraram legendas de aluguel. Coalizões se desmancham entre o café da manhã e o almoço.

Nesse contexto, a obstinação por um único perfume parece anacronismo. Por que manter lealdade olfativa quando nenhuma outra instituição a pratica?

"O que antes poderia ser visto como falta de personalidade, hoje é curiosidade olfativa e verdadeira libertação"

Luxo como multiplicidade, não exclusividade

A geração anterior — os baby boomers — via luxo como posse exclusiva. Um Rolex. Um Hermès. Um Chanel Nº 5 para a vida toda.

A Geração X redefine: luxo é ter repertório. É poder escolher conforme o contexto, o humor, a ocasião política.

Não por acaso, o mercado de perfumaria de nicho explodiu na última década. Marcas como Nishane, Byredo, Le Labo oferecem fragmentos autorais, composições complexas para consumidores que rejeitam o óbvio.

São perfumes sem campanhas massivas. Sem rostos famosos. Exigem conhecimento prévio, disponibilidade para experimentar, tolerância ao risco olfativo.

Exatamente como a política contemporânea.

Três perfumes, três alianças, zero culpa

A mulher que troca de perfume três vezes ao dia não é instável. É estratégica. Ela aprendeu que contextos diferentes exigem posicionamentos diferentes.

Manhã: algo cítrico, enérgico, para reuniões de trabalho.

Tarde: oriental amadeirado, para negociações mais densas.

Noite: floral profundo, para espaços de intimidade seletiva.

É exatamente assim que funciona o pragmatismo político no pós-coalizão: alianças táticas, redefinidas conforme a pauta, o momento, o adversário.

O perfume como declaração anti-institucional

Abandonar o perfume-assinatura é recusar a estabilidade forçada que o presidencialismo de coalizão impunha. É dizer: não serei refém de uma identidade única quando o mundo ao redor é multiplamente volátil.

A Geração X viu suas certezas institucionais desmoronarem. Emprego vitalício. Casamento indissolúvel. Partido para sempre. Perfume eterno.

Nada disso resistiu.

O que emerge não é caos, mas sofisticação adaptativa. A capacidade de transitar entre referências sem perder coerência interna.

É a política feita pele. Ou melhor: feita pele que muda de aroma conforme a temperatura do ambiente.