MAM reabre em SP: o custo político das obras no Ibirapuera
Dois anos. Foi o tempo que o Museu de Arte Moderna de São Paulo ficou fechado enquanto obras arrastavam-se na marquise do Ibirapuera. Quando reabrir em setembro, o MAM exibirá uma escultura luminosa de Carmela Gross — um Brasil torto, riscado, quase despedaçado em neon. A metáfora não poderia ser mais adequada.
Os atrasos na restauração da marquise projetada por Oscar Niemeyer expõem uma fratura crônica na gestão cultural brasileira: o embate entre preservação patrimonial e capacidade operacional do Estado.
O Precedente da Paralisia
Não é caso isolado. O MAM integra uma lista crescente de instituições culturais reféns de obras intermináveis. O Museu do Ipiranga permaneceu fechado por nove anos. O Museu Nacional, após o incêndio de 2018, segue em reconstrução parcial. A marquise do Ibirapuera, patrimônio tombado desde 1992, transformou-se em símbolo dessa inércia.
A questão transcende o campo da cultura. Trata-se de conflito institucional entre órgãos de preservação, prefeituras e governos estaduais — cada qual com sua burocracia, seus prazos, suas prioridades.
Quem Contra Quem
De um lado, o Iphan e o Condephaat, guardiões do patrimônio histórico, exigem rigor técnico absoluto. Do outro, gestores culturais pressionados por orçamentos limitados e cronogramas irrealistas. No meio, o público — privado do acesso.
A marquise do Ibirapuera é estrutura de concreto armado com 620 metros de extensão. Sua deterioração avançou décadas sem manutenção adequada. Quando finalmente iniciaram-se as obras, descobriu-se que a complexidade técnica fora subestimada. Niemeyer projetou uma cobertura suspensa de extraordinária ousadia estrutural. Restaurá-la exige engenharia de precisão cirúrgica.
O Custo da Demora
Durante o fechamento, o MAM perdeu receita de visitação, cancelou exposições, dispersou público. Sua programação migrou para espaços provisórios. A instituição, fundada em 1948, viu comprometer-se sua função básica: manter diálogo permanente com a cidade.
Carmela Gross, artista paulista de trajetória consolidada, criou para o novo restaurante do museu uma instalação que será visível da área externa. Linhas de neon vermelhas e azuis desenham geografias irregulares. Um mapa sem coordenadas fixas. Um país que não se reconhece inteiro.
A escolha artística dialoga com o momento. Enquanto o MAM reabria suas portas, o debate sobre políticas culturais intensificava-se em Brasília. A Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc 2 mobilizaram recursos significativos, mas expuseram fragilidades na capacidade de execução orçamentária.
Contexto Político Maior
A reabertura do MAM ocorre em contexto de tensionamento entre Executivo e Legislativo sobre destinação de recursos públicos. Emendas parlamentares dominam parcela crescente do orçamento, enquanto políticas de Estado, como preservação patrimonial, disputam migalhas.
O Congresso aprovou em 2025 medidas que facilitam parcerias público-privadas na gestão cultural. A ideia: reduzir dependência exclusiva de recursos estatais. Mas os órgãos de preservação mantêm controle sobre qualquer intervenção em bens tombados. O resultado é impasse operacional.
Há precedente internacional relevante. Na França, a restauração de Notre-Dame, após o incêndio de 2019, mobilizou doações privadas expressivas e foi concluída em prazo recorde. O modelo combinava rigor técnico com agilidade gerencial — exatamente o que falta aqui.
O Que Muda Agora
A reabertura do MAM não resolve a equação estrutural. Outras instituições permanecem fechadas ou operando precariamente. A marquise do Ibirapuera, mesmo restaurada, exigirá manutenção contínua — e novamente esbarrará na lentidão burocrática.
O Brasil de Carmela Gross, torto e riscado, permanece. Suas linhas luminosas não apontam direção clara. Apenas revelam a geografia instável de um país que ainda não aprendeu a cuidar de sua própria memória.
Para quem importa? Para gestores culturais que enfrentam dilemas semelhantes em todo o território nacional. Para legisladores que debatem marcos regulatórios da cultura. Para cidadãos que veem espaços públicos fechados indefinidamente enquanto recursos evaporam em trâmites intermináveis.
Setembro marcará a volta do MAM. Mas a pergunta permanece: por quanto tempo?