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Laura Pigossi vence na Espanha e expõe fragilidade do tênis brasileiro

Laura Pigossi vence na Espanha e expõe fragilidade do tênis brasileiro
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Laura Pigossi virou um jogo impossível. Perdeu o primeiro set no tie-break, caiu para 1 a 3 no terceiro, e fez cinco games seguidos para ser campeã. Duas horas e meia de resistência em quadra de saibro em Gran Canaria, Espanha, neste domingo (2). A número 2 do Brasil derrotou a turca Berfu Cengiz por 6/7 (2-7), 6/1 e 6/3 no W100 da ITF e voltou ao top 200 do ranking mundial.

A conquista individual expõe um paradoxo estrutural do esporte brasileiro.

O contexto que a vitória não revela

Pigossi compete no circuito ITF, a terceira divisão do tênis mundial. O W100 significa prêmio de 100 mil dólares — dividido entre todas as participantes. A campeã leva cerca de 15 mil dólares. Para manter-se competitiva, precisa viajar constantemente para torneios na Europa, Ásia e América do Norte, custeando equipe técnica, hospedagem e inscrições.

O Brasil não possui um sistema público de formação para tenistas de elite. Não há quadras públicas suficientes. Não há técnicos certificados em número adequado. Não há política de Estado para desenvolvimento de atletas em modalidades individuais.

Pigossi, como praticamente todos os tenistas brasileiros de ponta, é produto de investimento familiar e patrocínio privado. Sua trajetória depende de recursos próprios e da capacidade de atrair marcas. Quando o desempenho cai, o apoio desaparece.

A geografia do fracasso institucional

O tênis brasileiro vive há três décadas de um modelo de exceções. Gustavo Kuerten foi exceção. Beatriz Haddad Maia, atual número 1 do país, é exceção. Pigossi, agora de volta ao top 200, é exceção.

Exceções não constituem política pública. Constituem anomalia estatística.

Enquanto isso, países com PIB inferior ao brasileiro — como Croácia, República Tcheca e Argentina — produzem gerações sucessivas de tenistas de elite. A diferença não está no talento individual. Está na estrutura institucional de formação, na continuidade de políticas esportivas e no financiamento sustentável de atletas em desenvolvimento.

O precedente político

A vitória de Pigossi ocorre em momento sintomático. O governo federal brasileiro anunciou em 2026 cortes adicionais no orçamento do Ministério do Esporte. Programas de formação de base em modalidades olímpicas foram reduzidos. O Bolsa Atleta, principal mecanismo de apoio a competidores individuais, teve reajuste abaixo da inflação.

Paralelamente, o Sampaio Basquete conquistou a Liga Nacional Feminina. O maratonista Daniel Ferreira foi encontrado vivo após 44 dias desaparecido. Carol e Rebecca avançaram à final do Circuito Mundial de vôlei de praia.

Todas essas conquistas acontecem apesar do sistema, não por causa dele.

Para quem isso importa

O tênis é esporte de elite, social e economicamente. Mas serve como termômetro de algo maior: a capacidade de uma nação de transformar talento individual em resultado coletivo sustentável.

Quando Pigossi vence na Espanha, celebra-se a tenacidade pessoal. Correto. Mas ignora-se a pergunta estrutural: quantas Laura Pigossi o Brasil perde por ano por falta de quadra, técnico, passagem aérea ou simples oportunidade de treinar?

A resposta não está nos rankings internacionais. Está nas periferias sem equipamento público, nas escolas sem programa esportivo, nas famílias que não podem custear a formação de um atleta.

Pigossi venceu a turca Cengiz. Venceu a si mesma no terceiro set. Mas continua competindo sozinha contra um sistema que não a ampara — e que não amparará a próxima geração de tenistas brasileiros.

A vitória em Gran Canaria é notável. A derrota institucional do Brasil no esporte de alto rendimento é permanente.