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Homenagem a Preta Gil na Bahia revela força simbólica da fé popular

Homenagem a Preta Gil na Bahia revela força simbólica da fé popular
Foto: revistaquem.globo.com

Um ano após a morte de Preta Gil, a escolha do Santuário Santa Dulce dos Pobres para uma segunda cerimônia em sua homenagem não é apenas um gesto religioso. É um movimento que articula memória, identidade cultural e a persistente força da religiosidade popular como espaço de legitimação simbólica no Brasil contemporâneo.

A missa no Rio de Janeiro, realizada na Paróquia Santa Mônica no Leblon, atendia ao esperado: amigos, família, o circuito próximo. Mas a cerimônia marcada para as 16 horas desta segunda-feira (20) em Salvador, aberta ao público e presidida pelo Padre Fred, amplia o raio de significação.

Geografia da memória

A decisão do produtor cultural Geraldo Baddá, com apoio da família Gil e das Obras Sociais de Santa Dulce dos Pobres, revela leitura sofisticada do território simbólico brasileiro. Santa Dulce, canonizada em 2019, representa a primeira santa nascida no Brasil. Seu santuário funciona como epicentro de fé popular que transcende hierarquias.

Preta Gil morreu em decorrência de câncer de intestino no Dia do Amigo de 2025. A data já carregava simbolismo. A escolha do santuário baiano para perpetuar sua memória adiciona camadas: Bahia como berço cultural, religiosidade afro-católica como matriz, santidade recente como ponte entre tradição e contemporaneidade.

Quem homenageia quem

A articulação entre Maria Rita Lopes Pontes, equipe das Obras Sociais e a família Gil demonstra construção deliberada de narrativa. Não se trata apenas de luto, mas de posicionamento: Preta Gil como figura que transcendeu o universo artístico para ocupar espaço na cultura popular religiosa.

O movimento tem precedentes. A história brasileira está repleta de artistas cujas mortes se converteram em rituais de memória coletiva que ultrapassam o obituário. De Chacrinha a Gal Costa, o processo de canonização laica passa frequentemente por espaços religiosos que funcionam como validadores da importância cultural.

Mas há diferença: Preta Gil morreu jovem, de doença que ela tornou pública, em luta que documentou. A escolha de um santuário dedicado à santa dos pobres e doentes não é casual. É semântica política.

O santuário como arena pública

Santa Dulce dos Pobres construiu sua trajetória no cuidado aos excluídos. Suas obras sociais mantêm hospitais, escolas, centros de acolhimento. O santuário é, portanto, espaço de fé e também de assistência concreta — o que a teologia da libertação chamaria de práxis.

Ao vincular a memória de Preta Gil a esse espaço, os organizadores fazem mais que celebrar uma artista. Associam sua imagem a uma rede de significados que inclui solidariedade, luta contra a doença, abertura ao público amplo. É operação de sentido que desloca a homenagem do privado para o coletivo.

A cerimônia aberta, diferentemente da missa no Leblon, convida "admiradores e todos aqueles que foram tocados". A linguagem é deliberadamente inclusiva. O santuário oferece o que a paróquia de bairro nobre não pode: universalidade simbólica.

Precedente e contexto

A utilização de espaços religiosos para homenagens a figuras públicas não religiosas reflete fenômeno mais amplo: a persistência da religiosidade como linguagem comum em sociedade fragmentada. Onde política e cultura se polarizam, a fé ainda oferece gramática compartilhada.

No Brasil de 2026, marcado por divisões ideológicas profundas, a escolha de um santuário católico popular para homenagear artista negra, mulher, de família historicamente associada à esquerda cultural, carrega significado adicional. É aposta na religiosidade como território de encontro possível.

A parceria com as Obras Sociais reforça esse vetor. Não se trata de apropriação eclesiástica, mas de construção conjunta entre família, produção cultural e instituição religiosa com perfil assistencial.

O que fica

A homenagem a Preta Gil no Santuário Santa Dulce dos Pobres marca tentativa de inscrever sua memória em registro que supera o efêmero do entretenimento. Busca permanência através da associação com símbolos de longa duração: santidade, caridade, fé popular.

Se a iniciativa prosperará como referência dependerá da capacidade de articular, nos próximos anos, essa memória com práticas concretas. Santuários funcionam como espaços de peregrinação contínua. A questão é se a figura de Preta Gil será incorporada a esse fluxo ou permanecerá como homenagem pontual.

Por ora, a cerimônia revela o que já se sabe: no Brasil, a construção de memória pública ainda passa, invariavelmente, pela mediação do sagrado.