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El Niño vira teste de coordenação para presidencialismo de Lula

O Ministério do Meio Ambiente acaba de criar um grupo de trabalho para coordenar a resposta federal ao El Niño. A notícia parece técnica. Mas revela um problema político clássico: como fazer diferentes ministérios agirem juntos quando uma crise exige resposta coordenada.

É o presidencialismo de coalizão sendo testado pelo clima.

O que está em jogo

El Niño não é novidade. O fenômeno climático acontece ciclicamente e seus efeitos no Brasil são conhecidos: secas no Norte e Nordeste, chuvas intensas no Sul, impacto direto na geração hidrelétrica e na produção agrícola.

O que muda agora é a intensidade. E a necessidade de resposta articulada entre pelo menos quatro ministérios: Meio Ambiente, Minas e Energia, Agricultura e Fazenda.

Cada um tem sua agenda. Cada um responde a diferentes bases da coalizão governamental. A criação do grupo de trabalho é a tentativa do MMA de assumir protagonismo nessa coordenação.

A armadilha da fragmentação

O desafio não é apenas climático. É de governabilidade.

Marina Silva comanda o Meio Ambiente com forte apoio da sociedade civil organizada e movimentos ambientalistas. Alexandre Silveira, em Minas e Energia, representa interesses mais tradicionais do setor produtivo. Carlos Fávaro, na Agricultura, articula com o agronegócio que sustenta o superávit comercial brasileiro.

São três ministros. Três bases políticas. Três visões sobre como equilibrar proteção ambiental e desenvolvimento econômico.

O El Niño força essa conversa a acontecer agora.

Por que o setor energético observa

Embora o grupo de trabalho não altere regulação do setor elétrico diretamente, ele sinaliza preocupação com algo concreto: o risco de acionamento das termelétricas.

Quando os reservatórios hidrelétricos baixam, as termelétricas entram em operação. O custo de geração sobe. A conta de luz aumenta. A inflação reage.

E inflação corrói popularidade de governo. Especialmente de governos que prometeram recuperação do poder de compra.

O setor energético sabe que decisões de hoje sobre gestão de recursos hídricos impactam tarifas de amanhã. Por isso acompanha de perto qualquer sinal de coordenação — ou falta dela — no Executivo.

O precedente que importa

Esta não é a primeira vez que o governo federal cria estruturas para coordenar resposta a eventos climáticos. A diferença está no contexto.

Em 2001, a crise hídrica levou ao racionamento de energia. O custo político foi brutal para Fernando Henrique Cardoso. Em 2021, a gestão Bolsonaro evitou o racionamento, mas não evitou o aumento nas contas.

Lula conhece os dois precedentes. Sua aposta é na coordenação preventiva.

O grupo de trabalho do MMA é, portanto, uma peça de gestão de risco político tanto quanto de gestão ambiental.

Os limites da coordenação

Criar um grupo de trabalho é fácil. Fazê-lo funcionar em um presidencialismo de coalizão é outra história.

A efetividade dependerá de três fatores: capacidade de Marina Silva de articular com ministros de outras bases; vontade da Casa Civil de impor coordenação quando houver impasse; e disposição dos ministros econômicos de aceitar custos de curto prazo para evitar crises maiores.

Nenhum desses fatores é garantido.

O setor energético observa porque sabe: quando a coordenação falha, quem paga a conta é o consumidor. E quando o consumidor paga, o sistema político todo sente o impacto.

O que vem pela frente

O El Niño atual deve se estender pelos próximos meses. Seus efeitos sobre os reservatórios serão sentidos até o final do ano. E 2024 é ano de eleições municipais.

A pressão por resultados visíveis será alta. A tentação de decisões de curto prazo, maior ainda.

O grupo de trabalho do MMA é a aposta do governo em mostrar que aprendeu com crises anteriores. Se funcionará, só saberemos quando vier a próxima seca.

Até lá, o setor energético segue atento. Porque no presidencialismo de coalizão brasileiro, coordenação não se decreta. Se constrói. E nem sempre se alcança.