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El Niño 2026 ameaça energia e redesenha geopolítica do Brasil

Oitenta e um por cento de probabilidade. Essa é a chance de um El Niño classificado como "muito forte" atingir o Brasil entre outubro e dezembro de 2026, segundo projeções atualizadas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O fenômeno pode persistir até a primavera de 2027, criando o mais longo e intenso ciclo de alterações climáticas das últimas décadas — com impacto direto sobre a segurança energética nacional.

O aviso não é trivial. Em um país onde 60% da eletricidade ainda depende de usinas hidrelétricas, um El Niño prolongado significa seca no Centro-Oeste, redução drástica nos reservatórios e acionamento das termelétricas — as mais caras e poluentes. A conta chega ao consumidor. E ao governo, em ano eleitoral.

O precedente de 2015: quando o clima virou crise política

A última vez que o Brasil enfrentou um El Niño de magnitude comparável foi entre 2015 e 2016. Os reservatórios do Sudeste chegaram a 20% da capacidade. A bandeira tarifária vermelha virou regra. O governo Dilma Rousseff amargou desgaste eleitoral intensificado pela percepção de má gestão energética — combustível retórico para o impeachment que viria meses depois.

Agora, o calendário político torna tudo mais delicado. As eleições presidenciais de 2026 acontecem exatamente quando o fenômeno climático deve atingir seu pico. Qualquer aumento expressivo nas tarifas de energia entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027 afeta diretamente a popularidade do governo em exercício.

Geopolítica energética em xeque

A projeção do MMA coloca o Brasil diante de uma encruzilhada estratégica. De um lado, a pressão internacional por transição energética limpa — compromissos assumidos em acordos climáticos globais. De outro, a necessidade imediata de garantir oferta suficiente de energia, mesmo que isso signifique acionar fontes fósseis.

O dilema é geopolítico porque envolve fornecedores externos. O gás natural, principal combustível das termelétricas emergenciais, depende em parte de importações da Bolívia e de fornecimento via gasodutos controlados por empresas multinacionais. Vulnerabilidade energética é vulnerabilidade soberana.

Há ainda o componente regional. O El Niño afeta desigualmente o território nacional: enquanto o Sul pode enfrentar chuvas excessivas e enchentes, o Nordeste e o Centro-Oeste sofrem com estiagem prolongada. Governadores dessas regiões já começam a pressionar Brasília por medidas preventivas — e por recursos federais antecipados.

Quem ganha e quem perde

No setor privado, o alerta climático movimenta estratégias corporativas. Empresas de energia eólica e solar veem oportunidade de expandir participação na matriz energética. Fundos de investimento apostam em projetos de geração distribuída. O discurso é de diversificação e resiliência climática.

Mas há perdedores evidentes. Agricultores do Centro-Oeste, responsáveis pela maior parte da produção de grãos do país, enfrentam a perspectiva de safras reduzidas e custos de irrigação elevados. O agronegócio, setor estratégico para a balança comercial brasileira, pode ver sua produtividade comprometida justamente quando os preços internacionais das commodities mostram recuperação.

O governo federal está acuado entre interesses conflitantes: subsidiar tarifas de energia para evitar impopularidade eleitoral ou deixar que o mercado ajuste preços, arriscando revolta popular às vésperas da eleição. A memória de 2015 ainda assombra o Palácio do Planalto.

Precedente internacional e a nova diplomacia climática

O Brasil não está sozinho. Peru, Equador e Colômbia enfrentam riscos similares com El Niño de longa duração. Abre-se espaço para coordenação regional — ou para competição por recursos escassos, como financiamento climático internacional e tecnologias de adaptação.

A postura brasileira nos próximos meses define se o país lidera uma articulação sul-americana de resposta climática ou se adota postura isolacionista, cada nação tentando resolver seus problemas internamente. Essa escolha tem peso geopolítico duradouro.

O que vem pela frente

A atualização do MMA não é apenas meteorologia. É aviso estratégico com ramificações que atravessam economia, política eleitoral e posicionamento internacional do Brasil. Oitenta e um por cento de probabilidade significa que o fenômeno é praticamente certo.

A pergunta não é mais se o El Niño muito forte vai acontecer, mas como o país vai se preparar — e quem vai pagar a conta política dessa preparação.