Culto à personalidade no futebol espanhol preocupa analistas
Madri, segunda-feira. Um torcedor entrega ao técnico Luis de la Fuente uma réplica da taça da Copa do Mundo. Mas não é uma réplica qualquer: no topo, onde deveria estar o globo terrestre, aparece o rosto do próprio treinador.
De la Fuente riu. Os jogadores riram. A cena viralizou.
Mas por trás da aparente inocência da brincadeira, cientistas políticos identificam um padrão preocupante que atravessa fronteiras: a normalização do culto à personalidade em esferas cada vez mais amplas da vida pública.
O simbolismo da substituição
A taça da Copa do Mundo representa, por design, a universalidade do esporte. O globo no topo simboliza que a conquista pertence ao mundo, não a indivíduos.
Substituir esse símbolo pelo rosto de uma única pessoa inverte a lógica. Transforma o coletivo em individual. O institucional em pessoal.
"É exatamente assim que começa", afirma o cientista político Eduardo Meireles, da Universidade de Brasília. "Pequenos gestos que parecem inofensivos vão normalizando a ideia de que instituições existem para servir a grandes homens, não o contrário."
Paralelos com a crise democracia Brasil
O episódio espanhol ganha relevância particular quando observado sob a ótica da crise democracia Brasil e de outros países da América Latina.
Nas últimas duas décadas, o continente testemunhou a ascensão de lideranças que sistematicamente substituíram símbolos nacionais por culto à própria imagem. Chávez na Venezuela. Bolsonaro no Brasil. Cada um, à sua maneira, promoveu a fusão entre Estado e personalidade individual.
"A diferença entre uma democracia saudável e um regime personalista está nos detalhes", explica Meireles. "Está em aceitar que seu rosto substitua símbolos coletivos. Está em rir quando deveria haver desconforto institucional."
Espanha e a memória frágil
Para um país que viveu sob Franco até 1975, a Espanha demonstra memória institucional surpreendentemente curta.
O franquismo construiu-se precisamente sobre o culto à personalidade do Caudilho. Estátuas. Moedas. Prédios. Tudo levava seu rosto, seu nome, sua marca pessoal.
A transição democrática espanhola, considerada modelo, baseou-se na despersonalização do poder. Rei constitucional, parlamento forte, símbolos nacionais desvinculados de indivíduos.
Que um técnico de futebol aceite naturalmente ver seu rosto substituir um símbolo mundial sugere erosão desses valores.
O futebol como termômetro político
Futebol nunca foi apenas futebol.
Na Argentina de Videla, a Copa de 1978 serviu para legitimar ditadura. Na Itália de Mussolini, o bicampeonato mundial dos anos 1930 consolidou o fascismo. No Brasil, a ditadura apropriou-se do tricampeonato de 1970.
Quando técnicos e jogadores aceitam passivamente que suas imagens substituam símbolos coletivos, abrem precedente perigoso.
"O que vemos na Espanha é sintoma de fenômeno global", avalia a historiadora Carla Benedetti, especialista em regimes autoritários. "Redes sociais e cultura da celebridade criam ambiente propício para que o culto à personalidade pareça normal, até desejável."
Lições para o Brasil
O Brasil atravessa sua própria crise de despersonalização do poder.
Bandeiras nacionais foram sequestradas por grupos políticos. Símbolos pátrios tornaram-se marcas de facção. A confusão entre líder e nação atingiu níveis alarmantes entre 2019 e 2022.
A reconstrução democrática brasileira passa necessariamente pela reafirmação de que instituições transcendem indivíduos. Que símbolos pertencem a todos, não a poucos.
Nesse contexto, episódios como o de Madri servem de alerta.
Quando sociedades aceitam naturalmente que rostos individuais substituam símbolos coletivos — mesmo em contextos aparentemente inofensivos como o futebol —, pavimentam caminho para personalismos mais perigosos.
De la Fuente riu. Talvez devesse ter franzido a testa.