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Corpo gestante e redes sociais: a nova política da imagem pública

Corpo gestante e redes sociais: a nova política da imagem pública
Foto: revistaquem.globo.com

Isabella Scherer publicou no domingo (20) um ensaio fotográfico em topless aos 33 semanas de gestação. Em poucas horas, milhares de comentários. A imagem do corpo grávido exposto não é novidade nas redes sociais. Mas sua recorrência revela um fenômeno político subjacente: a disputa pela narrativa sobre o feminino, a maternidade e os limites da esfera pública.

A chef de cozinha e influenciadora de 29 anos não está sozinha nesse movimento. Nas últimas duas décadas, celebridades globais transformaram a gravidez em território de afirmação simbólica. De Demi Moore na capa da Vanity Fair em 1991 a Rihanna desfilando grávida em 2022, o corpo gestante deixou de ser objeto de pudor para se tornar plataforma política.

A Economia da Atenção e o Capital Gestacional

O que está em jogo não é apenas estética. É poder.

Isa Scherer acumula milhões de seguidores. Cada publicação gera engajamento mensurável. Marcas patrocinam. Algoritmos recompensam. A gravidez, historicamente confinada ao privado, tornou-se ativo econômico na era da atenção.

Essa mercantilização do corpo grávido divide opiniões. Críticos apontam para a objetificação disfarçada de empoderamento. Defensores argumentam tratar-se de autonomia sobre a própria imagem. O debate não é novo. Mas sua escala é inédita.

Comentários como "parece gêmeos, mas é só um" ou "você está divina" revelam mais do que admiração. Revelam o contrato implícito entre influenciadora e audiência: a entrega contínua de intimidade em troca de validação quantificável.

Precedentes Históricos e Ruptura Cultural

A exposição do corpo grávido sempre foi política.

No Brasil, até os anos 1980, mulheres gestantes eram orientadas a se recolher. A barriga deveria ser escondida. O corpo, negado. Essa moral tinha função clara: manter a maternidade fora da esfera pública, longe do poder.

A virada começou com movimentos feministas que reivindicaram o direito ao próprio corpo. Não apenas no aborto. Também na escolha de como, quando e onde aparecer grávida.

Isabella Scherer opera nessa tradição. Mas com diferença crucial: sua plataforma não é o espaço físico. É digital. Instantânea. Global.

Coalizão Presidencial da Imagem

Toda imagem pública constrói alianças.

Ao posar de topless grávida, Isa Scherer mobiliza apoio de segmentos específicos: mulheres jovens urbanas, defensoras da autonomia corporal, consumidoras de pautas progressistas. Simultaneamente, enfrenta resistência conservadora que vê na exposição uma ameaça à "família tradicional".

Essa disputa simbólica espelha tensões maiores na sociedade brasileira. A mesma polarização que atravessa debates sobre costumes, gênero e moral.

Não se trata de política partidária stricto sensu. Mas de política cultural. E nela, influenciadores digitais operam como formuladores de consenso, articuladores de coalizões informais, construtores de hegemonias temporárias.

A coalizão que sustenta a imagem de Isa Scherer é composta por marcas, seguidores, veículos de imprensa e algoritmos. Cada curtida, um voto. Cada compartilhamento, um endosso.

Consequências Para o Debate Público

A normalização da gravidez exposta tem efeitos ambíguos.

Por um lado, desestigmatiza o corpo feminino. Desafia tabus. Amplia representações possíveis de maternidade. Por outro, submete a experiência gestacional à lógica do espetáculo. Transforma intimidade em commodity. Estabelece padrões estéticos inalcançáveis para a maioria.

Isabella Scherer não inventou essa dinâmica. Mas a exemplifica com clareza.

O que antes era privado tornou-se público. O que era público tornou-se mercado. E o mercado, hoje, estrutura identidades, afetos e políticas.

Resta saber se essa exposição contínua representa efetiva ampliação de liberdades ou apenas nova forma de vigilância — agora autoimposta, performada, curtida.

A resposta não é simples. Porque o fenômeno não é simples. É sintoma de reordenamento mais profundo nas relações entre indivíduo, sociedade e tecnologia.

Por ora, a barriga de 33 semanas segue acumulando likes. E o debate, longe de se encerrar, apenas começa.