Economia

Clima extremo divide Brasil e expõe fragilidade da coalizão

Mato Grosso colhe algodão sob céu aberto. Rio Grande do Sul evacua famílias sob temporais. Entre esses dois extremos, desenha-se um mapa político mais revelador que qualquer boletim meteorológico.

O clima seco que favorece a colinadeira mato-grossense é o mesmo fenômeno que deixa o Sul em estado de alerta. Não são eventos isolados. São faces da mesma moeda climática que a coalizão presidencial ainda não conseguiu unificar em discurso coerente.

A Geografia do Poder Agrícola

Mato Grosso concentra 67% da produção nacional de algodão. O estado representa a elite do agronegócio brasileiro, aquela que dialoga diretamente com Pequim e Chicago. Suas lideranças ocupam espaços estratégicos no Congresso.

O Sul, por sua vez, é território da agricultura familiar e das cooperativas que sustentam a base eleitoral tradicional do petismo e do MDB. Duas agriculturas. Dois brasis. Uma mesma coalizão presidencial tentando agradar ambos.

A dualidade climática desta semana expõe a fratura.

Precedente Político em Jogo

Não é a primeira vez que o clima testa a coesão governamental. Em 2004, durante o primeiro mandato de Lula, secas no Nordeste e geadas no Sul forçaram o Planalto a escolher prioridades orçamentárias. O episódio quase rompeu a aliança com o PMDB.

Agora, em 2025, a equação se complica. O ministério da Agricultura articula-se com a bancada ruralista para defender crédito expandido ao Centro-Oeste. Simultaneamente, a Casa Civil negocia recursos emergenciais para o Sul junto a governadores do MDB e do PSDB.

São R$ 4,2 bilhões em disputa no Orçamento. Recursos insuficientes para atender plenamente ambas as regiões.

A Armadilha do Sucesso Desigual

A safra recorde de Mato Grosso — estimada em 3,8 milhões de toneladas de algodão — deveria ser vitória nacional. Tecnicamente, é. Politicamente, torna-se constrangimento quando contrastada com lavouras alagadas no Rio Grande do Sul.

O sucesso de uns evidencia a vulnerabilidade de outros.

Marina Silva, do Meio Ambiente, tenta vincular ambos os eventos às mudanças climáticas. Busca unificar a narrativa. Mas enfrenta resistência da ala desenvolvimentista da coalizão, que vê no discurso ambiental um freio ao crescimento do agro.

"Não podemos comemorar safra enquanto produtores gaúchos perdem tudo", declarou deputado do PT gaúcho em reunião fechada da bancada.

Quem Contra Quem

Centro-Oeste produtivista versus Sul tradicionalista — eis o conflito que a coalizão presidencial precisa mediar sem romper-se.

A solução técnica existe: seguro rural robusto, políticas de adaptação climática, investimento em infraestrutura hídrica. Mas a solução política é mais complexa. Exige redistribuir poder e recursos entre alas que já competem por espaço no governo.

O Termômetro do Congresso

A bancada do algodão conta 43 deputados. A bancada do arroz e da soja familiar, 61. Juntas, formam 104 votos — mais de um quinto da Câmara. Nenhum governo pode ignorá-las.

Mas não votam unidas. Raramente concordam sobre políticas agrícolas. E nos próximos 60 dias, precisarão votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias que definirá prioridades para 2026.

O clima desta semana — seco em MT, tempestuoso no Sul — antecipa o clima político que se avizinha.

Significado Estratégico

Para a coalizão presidencial, este momento define capacidade de governança além da retórica. Administrar contradições regionais sem fragmentar a base é o teste real de qualquer arranjo político no Brasil.

O desafio não é meteorológico. É institucional.

Enquanto Mato Grosso acelera colheitadeiras, o Sul empilha sacos de areia. Entre essas duas realidades, a coalizão que sustenta o Planalto decide se é projeto nacional ou soma precária de interesses regionais.

A resposta virá não nos boletins do tempo, mas nas próximas votações do Congresso.