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Celebridades e estética: o novo marketing do sistema político

Celebridades e estética: o novo marketing do sistema político
Foto: revistaquem.globo.com

Virginia Fonseca, 27 anos, entrou em uma clínica de dermatologia em São Paulo. Saiu com a pele mais firme. O dermatologista Alessandro Alarcão postou o procedimento. Milhões viram.

Dias antes, Vini Jr tinha feito o mesmo caminho. Mesma clínica. Mesmo médico. Mesmo resultado: exposição massiva.

O episódio revela mais do que vaidade de celebridades. Expõe uma reconfiguração do poder simbólico no Brasil — onde influenciadores digitais constroem capitais políticos paralelos ao sistema partidário tradicional.

A economia da atenção substitui a militância

Virginia acumulou 52 milhões de seguidores no Instagram. Vini Jr tem 50 milhões. Juntos, alcançam mais brasileiros do que qualquer partido político consegue mobilizar.

O procedimento realizado — XERF, uma radiofrequência monopolar — promete estimular colágeno sem agulhas. Mas o verdadeiro produto vendido não é estético. É influência.

Enquanto o sistema partidário Brasil enfrenta crise de representatividade, com abstenção recorde e desconfiança crescente, celebridades constroem bases de apoio via identificação e aspiração. Não pedem voto. Pedem atenção. E a convertem em capital.

O precedente histórico da imagem como poder

Não é fenômeno inédito. Nos anos 1950, Hollywood alimentou a política americana. Ronald Reagan surfou dessa onda até a Casa Branca. No Brasil, Collor usou a televisão para derrotar máquinas partidárias em 1989.

A diferença agora é a descentralização. Qualquer um com smartphone pode construir audiência. Virginia começou postando rotina doméstica. Hoje influencia comportamentos de consumo, padrões estéticos e, indiretamente, valores sociais.

O sistema partidário tradicional ainda opera em lógica do século XX: comícios, panfletos, inserções de TV. As celebridades digitais dominam o espaço onde os brasileiros realmente estão: redes sociais, feeds infinitos, stories efêmeros.

Quem ganha e quem perde

Ganha quem entende a nova gramática do poder. Empresas de estética, marcas de consumo, plataformas digitais. Perdem instituições que dependem de mediação tradicional — partidos, sindicatos, igrejas.

Virginia não fala de política. Mas quando promove padrões de beleza, reforça indústria bilionária. Quando monetiza atenção, legitima modelo econômico baseado em dados e vigilância.

O dermatologista Alarcão compreendeu a dinâmica. Não vende apenas procedimentos. Vende associação com celebridades. Cada post é publicidade. Cada resultado, testemunho. Cada famoso, outdoor ambulante.

O sistema partidário observa de longe

Enquanto isso, partidos brasileiros amargam filiação decrescente. PSDB tinha 1,3 milhão de filiados em 2014. Hoje tem 900 mil. PT perdeu 400 mil desde 2018. MDB encolhe há década.

Não é coincidência. A mediação política migrou. Influenciadores substituem lideranças tradicionais. Algoritmos definem agendas. Engajamento vale mais que programa partidário.

Virginia e Vini Jr não precisam de partido para ter voz. Têm plataforma própria. Audiência cativa. Monetização direta.

O sistema partidário Brasil precisa deles mais do que eles precisam do sistema.

Consequências para a democracia representativa

A fragmentação do poder simbólico cria desafios. Celebridades não prestam contas. Não têm programa. Não representam formalmente ninguém.

Mas influenciam. Silenciosamente. Constantemente.

Um procedimento estético divulgado ensina mais sobre aspirações da classe média brasileira do que pesquisas eleitorais. Revela o que as pessoas querem ser. Como querem ser vistas. Quanto estão dispostas a pagar por isso.

Partidos que ignorarem essa realidade continuarão perdendo relevância. Os que aprenderem a dialogar nessa linguagem podem sobreviver.

Mas precisarão admitir: não controlam mais a narrativa. Virginia e Vini Jr controlam.