Esportes

Boné trumpista na Espanha expõe onda nacionalista no esporte

Boné trumpista na Espanha expõe onda nacionalista no esporte
Foto: ge.globo.com

Ferran Torres ergueu a Copa do Mundo no domingo. Na segunda-feira, desfilou pelas ruas de Madri com um boné vermelho onde se lia: "Make Spain Great Again". A adaptação do slogan de Donald Trump não foi acidental. Foi declaração.

O atacante do Barcelona, autor do gol que deu o título à Espanha, transformou uma festa esportiva em manifesto político. O boné replica a fórmula "MAGA" — Make America Great Again — que Trump consolidou desde 2016 como código do nacionalismo conservador global.

O que significa esse gesto

Torres não inventou nada. Importou um símbolo. O boné trumpista tornou-se, na última década, uniforme de movimentos nacionalistas em dezenas de países. Da Itália de Meloni ao Brasil de Bolsonaro, a fórmula "tornar X grande novamente" virou template para políticos que prometem recuperar uma grandeza mítica do passado.

No caso espanhol, o timing é revelador. A Espanha vive ressaca de uma década turbulenta: crise catalã, ascensão do Vox, polarização territorial. O título mundial ofereceu raro momento de unidade nacional. Torres escolheu esse instante para vestir simbolismo divisionista.

Precedente histórico: esporte como palanque

Não é a primeira vez que um atleta usa vitória esportiva para posicionamento político. Jesse Owens desafiou Hitler em 1936. Tommie Smith e John Carlos ergueram punhos negros em 1968. Mesut Özil denunciou perseguição aos uigures em 2019.

A diferença é substantiva. Owens, Smith e Carlos protestavam contra opressão. Torres celebra com símbolo associado a retórica excludente. O gesto não desafia poder. Conforta-o.

O historiador Timothy Snyder argumenta que slogans de "retorno à grandeza" operam por apagamento: prometem futuro glorioso evocando passado que nunca existiu. A Espanha "grande" do imaginário nacionalista é a do império colonial, da homogeneidade católica, da centralização autoritária — exatamente o que parcela significativa do país rejeita.

Quem contra quem

O conflito é claro: nacionalismo nostálgico versus pluralismo democrático. Torres, consciente ou não, posicionou-se. Usou capital simbólico de herói esportivo para normalizar estética política específica.

A seleção espanhola, ironicamente, é mosaico: Lamine Yamal, filho de marroquinos; Nico Williams, de ganeses; Pedri, catalão; Morata, madrilenho. O time que Torres representa é argumento vivo contra o discurso de pureza nacional que o boné trumpista codifica.

Conexão brasileira

O episódio ressoa no Brasil, onde reforma política está em pauta no Congresso. A discussão sobre limites da manifestação política de figuras públicas — especialmente atletas com contratos publicitários milionários — atravessa fronteiras.

Clubes e federações enfrentam dilema: punir posicionamentos políticos arrisca acusação de censura; ignorá-los equivale a endosso tácito. A CBF, que já lidou com polêmicas envolvendo Neymar e declarações políticas, observa atentamente o caso espanhol.

Projetos de reforma política no Brasil incluem dispositivos sobre propaganda irregular e uso de imagem pública. O boné de Torres ilustra zona cinzenta: não é campanha eleitoral formal, mas comunica ideologia com eficácia superior a qualquer comício.

O que vem depois

Torres não sofrerá punição da federação espanhola. O episódio será arquivado como "manifestação pessoal". Mas o precedente está estabelecido: atletas podem converter momentos de unidade nacional em plataformas para agendas divisivas.

A normalização é o objetivo. Quando símbolo político extremo aparece em contexto festivo, despolitiza-se pela repetição. O boné deixa de ser statement trumpista e vira apenas "boné patriótico".

Para Torres, custou pouco: algumas críticas em redes sociais, elogios em fóruns conservadores, retorno ao clube na semana seguinte. Para o esporte, o custo é maior: erosão da neutralidade que permitia ao futebol funcionar como raro espaço de consenso em sociedades polarizadas.

A frase no boné promete tornar a Espanha grande novamente. Não explica quando ela deixou de ser. Nem para quem a grandeza será restaurada. Essas omissões não são descuido. São estratégia.