Análise: Expo agrícola revela disputa política no interior de SP
São José do Rio Preto se prepara para sediar, entre 1 e 16 de agosto, mais uma edição de sua tradicional exposição agropecuária. Mas a 63ª Expo Rio Preto não é apenas uma feira de gado.
É um termômetro político do interior paulista.
O peso econômico das exposições regionais
Eventos como a Expo Rio Preto movimentam cifras que ultrapassam R$ 80 milhões em negócios diretos. São 16 dias de vitrine para o setor que responde por 27% do PIB brasileiro e controla a maior bancada suprapartidária do Congresso Nacional.
A programação diversificada, com shows gratuitos e competições pecuárias, esconde uma realidade mais complexa: essas feiras consolidaram-se como espaços de articulação política desde a redemocratização.
Deputados federais, prefeitos e secretários estaduais circulam pelos pavilhões com a mesma frequência dos criadores de nelore.
Interior versus capital: a velha disputa por recursos
A força do agronegócio no interior paulista representa um contraponto histórico à hegemonia da capital. São José do Rio Preto, polo regional com 460 mil habitantes, exemplifica essa tensão.
A cidade concentra tecnologia agrícola, indústria de insumos e centros de pesquisa veterinária. Seu PIB per capita supera a média estadual.
Quando uma Expo regional completa 63 edições ininterruptas, o recado é claro: há continuidade institucional, capacidade de mobilização e, sobretudo, poder de pressão.
O que está em jogo em 2023
Este ano, a Expo ocorre em contexto particular. O governo federal reduziu em 23% os recursos para crédito rural de custeio. A estiagem compromete safras em estados vizinhos. E a reforma tributária em tramitação no Congresso ameaça alterar a estrutura de incentivos ao setor.
Eventos como a Expo Rio Preto funcionam, nesse cenário, como demonstrações de força. Mostram ao poder central que o interior produtivo está organizado, mobilizado e atento.
As "atrações especiais" mencionadas pela organização incluem leilões de animais de elite genética, cujos compradores frequentemente mantêm vínculos com grupos políticos regionais.
Precedente histórico das feiras agropecuárias
Desde os anos 1960, exposições regionais serviram como plataforma de lançamento para carreiras políticas. Governadores de São Paulo como Abreu Sodré e Paulo Maluf consolidaram bases eleitorais percorrendo o circuito das expos do interior.
A tradição se mantém. Candidatos a cargos majoritários calculam suas agendas para marcar presença nos dias de maior movimento.
Fotografar-se ao lado de um touro campeão, discursar na abertura oficial ou patrocinar provas equestres: tudo isso compõe o vocabulário político do Brasil agrário.
Quem comparece e por quê
A lista de autoridades esperadas em Rio Preto nas próximas semanas dirá muito sobre os alinhamentos de 2024. Secretários estaduais de Agricultura testam popularidade. Deputados federais avaliam quanto capital político ainda possuem em suas bases.
Para os organizadores, garantir público numeroso e negócios volumosos significa manter relevância. Para os políticos, significa manter votos.
A pecuária, oficialmente o foco do evento, serve de pano de fundo para essa coreografia mais antiga que a própria democracia brasileira: a dança entre poder econômico e representação política.
O significado para além do rodeio
Quando 63 edições de uma feira regional atravessam regimes políticos, crises econômicas e transformações sociais, o evento transcende sua função original.
A Expo Rio Preto se tornou instituição. E instituições, no Brasil, raramente são apenas o que parecem à primeira vista.
Enquanto o público se entretém com shows gratuitos e competições de laço, outra disputa se desenrola nos camarotes e pavilhões VIP: a disputa pelo Brasil que produz, vota e pressiona.
Essa é a verdadeira programação diversificada de agosto em São José do Rio Preto.